<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Narciso]]></title><description><![CDATA[Vivo, observo, escuto, analiso e escrevo. Não necessariamente nessa ordem. ]]></description><link>https://narcisodeoliveira.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!j71u!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F271b8dff-3a28-46c4-adc6-9bfc9283a3ca_1141x928.png</url><title>Narciso</title><link>https://narcisodeoliveira.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 05 Aug 2026 02:11:36 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://narcisodeoliveira.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Narciso]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[narcisodeoliveira@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[narcisodeoliveira@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[narcisodeoliveira@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[narcisodeoliveira@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O CONVITE: O LABIRINTO DAS TENSÕES CONJUGAIS]]></title><description><![CDATA[O desamparo afetivo e a frustra&#231;&#227;o conjugal geram uma tens&#227;o silenciosa e cont&#237;nua: para manter apar&#234;ncias, esconde-se o medo do pr&#243;prio vazio. Nessa conviv&#234;ncia, o desejo sincero de uni&#227;o entra em conflito direto com impulsos de agressividade e isolamento, transformando a rotina do casal em um ciclo permanente de conflitos n&#227;o resolvidos.]]></description><link>https://narcisodeoliveira.substack.com/p/o-convite-o-labirinto-das-tensoes</link><guid isPermaLink="false">https://narcisodeoliveira.substack.com/p/o-convite-o-labirinto-das-tensoes</guid><dc:creator><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Jul 2026 23:54:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/80db07d3-6104-4fb4-a58b-e8f6e1b8b5d8_1897x894.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Ao analisar o universo sem&#226;ntico de uma produ&#231;&#227;o de confinamento c&#234;nico como <em>O Convite</em> (2026, Olivia Wilde) <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt14173636/?ref_=fn_t_1">Imdb</a>, devemos saber que estamos diante de uma complexa pluralidade de s&#237;mbolos e de v&#225;rios n&#237;veis de leitura.</p><p>&#201; inevit&#225;vel a compara&#231;&#227;o dessas tens&#245;es com as for&#231;as emocionais e os mecanismos de defesa descritos por Freud. As quatro personagens &#8212; Joe, Angela, Hawk e Pi&#241;a &#8212; n&#227;o se cruzam naquela noite por mero acaso; suas intera&#231;&#245;es repetem, sob a forma de uma encena&#231;&#227;o cl&#237;nica, as fraturas subjetivas de uma civiliza&#231;&#227;o constru&#237;da sobre a ren&#250;ncia instintual e a permanente frustra&#231;&#227;o cultural das rela&#231;&#245;es amorosas.</p><p>A partir dessas observa&#231;&#245;es, segue uma an&#225;lise cr&#237;tica dos perfis dos personagens:</p><p><strong>JOE - O Eu Sitiado e as Forma&#231;&#245;es Reativas</strong></p><p>Joe representa o Eu neur&#243;tico fragilizado por uma severa e cr&#244;nica frustra&#231;&#227;o afetiva e sexual. Diante do desgaste de seu casamento com Angela, sua atitude consciente foi o recolhimento e a inibi&#231;&#227;o defensiva, mas a energia agressiva que ele passa o tempo recalcando para manter uma &#8220;falsa cordialidade&#8221; social &#233; deslocada e se expressa de modo s&#225;dico ao reclamar dos barulhos sexuais dos vizinhos. Sob a perspectiva freudiana, aprendemos que a agressividade que o Eu n&#227;o consegue descarregar para fora &#233; introjetada, internalizada, sendo mandada de volta contra o pr&#243;prio Eu atrav&#233;s de um Super-eu r&#237;gido. Essa frustra&#231;&#227;o tamb&#233;m se origina em uma verdadeira pris&#227;o infantil na qual ele se mant&#233;m capturado; Joe v&#234; a si mesmo como algu&#233;m aqu&#233;m de suas pr&#243;prias idealiza&#231;&#245;es quebradas de sucesso, carregando a consci&#234;ncia de culpa de um fracasso definitivo em rela&#231;&#227;o &#224;s expectativas (impl&#237;citas no filme) de seus pais. O t&#233;dio amargo que nutre em rela&#231;&#227;o &#224; sua carreira de professor de m&#250;sica aparece ao seu aparelho ps&#237;quico como um pr&#234;mio de consola&#231;&#227;o, uma severa conten&#231;&#227;o de danos por n&#227;o ter alcan&#231;ado o lugar idealizado de membro bem-sucedido de uma banda que nunca emplacou. Joe &#233; o homem que tenta controlar a ang&#250;stia transformando o seu pensamento numa &#8220;a&#231;&#227;o experimental&#8221; de censura ao Outro, mas o confinamento do jantar funciona como o desabamento desse baluarte, for&#231;ando seu Eu a encarar o imprevisto e o improviso das paix&#245;es.</p><p><strong>ANGELA &#8211; O desamparo e a captura pelo olhar do Outro</strong></p><p>Angela, por sua vez, habita um Eu acuado pelo medo iminente da perda do amor e pelo desmoronamento de sua unidade conjugal. Sua fachada inicial de anfitri&#227; perfeita constitui uma leg&#237;tima forma&#231;&#227;o reativa &#8212; um esfor&#231;o mec&#226;nico do Eu para ocultar as fendas de sua economia libidinal insatisfeita e reprimir o abandono da realidade. Essa arquitetura defensiva revela uma subjetividade profundamente dependente do olhar do Outro para valida&#231;&#227;o, o que desencadeia uma busca fren&#233;tica pelo olhar de Hawk. Na abordagem freudiana sobre o narcisismo e a escolha de objeto, compreende-se que a economia do desejo n&#227;o se satisfaz com uma valida&#231;&#227;o difusa: o olhar que possui real valor econ&#244;mico para o Eu &#233; aquele que emana de um Outro investido de admira&#231;&#227;o. N&#227;o basta para o sujeito simplesmente constituir-se como objeto de desejo de outrem; o verdadeiro gozo reside em capturar o desejo daquele a quem se deseja e admira. Uma vez que Angela n&#227;o possui, e j&#225; desistiu de ter, o olhar valorizativo do marido, encontrando-se desestruturada pelo fracasso cr&#244;nico do casamento, ela passa a demandar o olhar e o desejo daqueles que julga especiais e situados fora da mediocridade cotidiana. Quando as barreiras do recalque come&#231;am a ceder sob a press&#227;o do confronto com as subjetividades dos vizinhos, o sinal de ang&#250;stia de Angela falha. O perigo interno de desamparo invade seu aparelho ps&#237;quico de forma t&#227;o maci&#231;a que ela sofre uma desestrutura&#231;&#227;o econ&#244;mica avassaladora, caindo numa crise de ansiedade pura, onde as defesas j&#225; n&#227;o podem camuflar o sofrimento real.</p><p><strong>HAWK - O Id Desinibido e a Fixa&#231;&#227;o Fetichista</strong></p><p>Hawk atua estritamente sob o governo do Id, liberto das coer&#231;&#245;es e limita&#231;&#245;es habituais da censura cultural. Ele exibe uma plasticidade instintual que causa repulsa em Joe e admira&#231;&#227;o em Angela. Ao fixar seus investimentos libidinais de modo quase fetichista em sua paix&#227;o por decora&#231;&#227;o e tapetes, ele opera uma sublima&#231;&#227;o singular; na evolu&#231;&#227;o dos instintos, esse deslocamento para objetos inanimados confere a Hawk uma independ&#234;ncia arrogante. Ele se move com a desenvoltura  de quem n&#227;o recalca a destrutividade nem se curva ao imperativo categ&#243;rico da moralidade comum. Essa autonomia instintual ganha uma poderosa dimens&#227;o simb&#243;lica na transi&#231;&#227;o de seu nome original, Howard, para o seu apelido de autoafirma&#231;&#227;o, Hawk. Na tradi&#231;&#227;o anglo-sax&#244;nica e na cultura norte-americana, &#8220;Howard&#8221; carrega a raiz hist&#243;rica do guardi&#227;o da corte ou do protetor aristocr&#225;tico &#8212; um nome intrinsecamente ligado &#224; heran&#231;a da respeitabilidade social, &#224; conten&#231;&#227;o e &#224; submiss&#227;o &#224;s regras civilizat&#243;rias do Super-eu. Ao abdicar desse nome para adotar &#8220;Hawk&#8221; (Falc&#227;o), o personagem opera um violento descarte dessa bagagem institucionalizada. Culturalmente na sociedade dos Estados Unidos, o falc&#227;o evoca a figura do predador de topo, a ave de rapina caracterizada por uma vis&#227;o agu&#231;ada e implac&#225;vel e por um &#237;mpeto de ca&#231;a que n&#227;o pede permiss&#227;o para agir. Por tr&#225;s dessa fratura onom&#225;stica est&#225; o desejo de rasgar a m&#225;scara do homem domesticado e assumir a crueza de uma natureza puramente pulsional. Hawk joga fora o protocolo do guardi&#227;o para encarnar o pr&#243;prio predador. Sua mera presen&#231;a na sala funciona como a causa imediata que ati&#231;a e desperta os complexos recalcados dos donos da casa.</p><p><strong>PI&#209;A &#8211; O Super-eu anal&#237;tico e a dial&#233;tica do desejo e da falta</strong></p><p>Pi&#241;a opera na din&#226;mica desse quarteto como o pr&#243;prio Super-eu anal&#237;tico, a inst&#226;ncia detentora do saber e da observa&#231;&#227;o judicativa. Como psicoterapeuta, sua subjetividade assume a fun&#231;&#227;o cens&#243;ria e vigilante de um Super-eu cultural que desnuda as racionaliza&#231;&#245;es e os disfarces do Eu de Joe e Angela. Longe de se restringir a uma postura meramente cl&#237;nica ou austera, ela corporifica o pr&#243;prio enigma do desejo lacaniano: apresenta-se como uma figura intensamente sensual, sedutora e dona de si. Pi&#241;a percorre a casa e dan&#231;a com fluidez entre os corpos presentes no apartamento, deslocando as coordenadas libidinais daquele espa&#231;o enclausurado. Ao manejar a sua pr&#243;pria imagem er&#243;tica, ela atua como um catalisador pulsional, despertando nos anfitri&#245;es n&#227;o apenas o desejo bruto, mas tamb&#233;m profundos questionamentos transferenciais sobre as suas pr&#243;prias faltas e inibi&#231;&#245;es. Segura e habituada a lidar com o improviso, Pi&#241;a n&#227;o teme as for&#231;as que se agitam no Id; pelo contr&#225;rio, manipula-as para desarticular os pactos de sil&#234;ncio do casal anfitri&#227;o.</p><p>Essa desenvoltura quase m&#237;tica, no entanto, n&#227;o se sustenta como uma totalidade inabal&#225;vel. Em determinado momento do confronto c&#234;nico, a m&#225;scara da analista infal&#237;vel e da sedutora soberana cai por terra, expondo a sua pr&#243;pria divis&#227;o subjetiva. Sob o olhar atento da sala, ela revela uma face comum: uma mulher que compartilha com o marido ru&#237;dos cotidianos, picuinhas dom&#233;sticas e descontentamentos cr&#244;nicos como casal. Na articula&#231;&#227;o entre a cl&#237;nica de Freud e o ensino de Lacan, essa fissura exp&#245;e que a completude &#233; uma ilus&#227;o do Eu; as cenas demonstram, de forma crua, que n&#227;o existe rela&#231;&#227;o que n&#227;o seja estruturalmente permeada por insatisfa&#231;&#245;es intr&#237;nsecas &#224; psique humana e pelo resto sintom&#225;tico que resiste a qualquer an&#225;lise. Ao longo do jantar, ela estabelece uma identifica&#231;&#227;o profunda com Angela, operando uma alian&#231;a e altern&#226;ncia de poder que quebra a falsa rigidez das conven&#231;&#245;es masculinas de Joe, for&#231;ando a verdade oculta do desejo e da castra&#231;&#227;o a vir &#224; luz.</p><p><strong>.. E a luz se acende</strong></p><p>A interpreta&#231;&#227;o cr&#237;tica de <em>O Convite</em> por essa vertente anal&#237;tica, demonstra que a falsidade social e as desaven&#231;as cotidianas n&#227;o eram o problema real, mas sim os sintomas e os suced&#226;neos deformados de uma mis&#233;ria psicol&#243;gica profunda e de um desamparo afetivo que o quarteto tentava esconder. O filme revela o que est&#225; por tr&#225;s das apar&#234;ncias e faz um mergulho no interior do sentimento de frustra&#231;&#227;o conjugal. Somos obrigados a reconhecer as semelhan&#231;as entre o laborat&#243;rio daquele jantar e os mecanismos da pr&#243;pria vida; o filme nos deixa com a desilusionante certeza de que, no fundo, a neurose &#233; tamb&#233;m uma aquisi&#231;&#227;o cultural, e de que a busca pela felicidade permanece um combate de gigantes entre o amor que tenta nos unir e a agressividade que teima em nos isolar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O "EDUCADOR" PERVERSO E A CLÍNICA DO TRAUMA EM THE BOYS OF ST. VINCENT (1992)]]></title><description><![CDATA[Voc&#234; j&#225; parou para pensar na vulnerabilidade invis&#237;vel que ronda os ambientes que consideramos os mais seguros para nossos filhos? A prote&#231;&#227;o contra a pedofilia e o abuso infantil n&#227;o se resume a afastar estranhos na rua, exige encarar a inc&#244;moda possibilidade de que o perigo possa vestir a t&#250;nica da autoridade, do afeto institucional ou da pr&#243;pria figura do educador. Dentro da escola, a combina&#231;&#227;o de poder, confian&#231;a e omiss&#227;o cria o cen&#225;rio ideal para predadores agirem nas sombras. Superar o tabu e armar-se de informa&#231;&#227;o &#233; nossa primeira e mais forte defesa. Este texto &#233; um convite urgente &#224; vigil&#226;ncia ativa, &#224; reflex&#227;o e &#224; prote&#231;&#227;o incondicional das nossas crian&#231;as.]]></description><link>https://narcisodeoliveira.substack.com/p/o-professor-perverso-e-a-clinica</link><guid isPermaLink="false">https://narcisodeoliveira.substack.com/p/o-professor-perverso-e-a-clinica</guid><dc:creator><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 13:08:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49dafdcd-55f6-4cb5-84f4-7d22101970b0_2432x1241.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O filme <em>The Boys of St. Vincent</em> <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0225219/">Imdb</a> (1992,John N. Smith) inspira-se nos eventos reais ocorridos no orfanato cat&#243;lico Mount Cashel, em Terra Nova, Canad&#225;. Ao transpor esses fatos para a tela, a dire&#231;&#227;o evita construir um tribunal moral simplista, conduzindo a narrativa para um terreno muito mais sombrio e desconfort&#225;vel. Em vez de oferecer respostas f&#225;ceis, a obra nos obriga a confrontar o agressor a partir de sua pr&#243;pria l&#243;gica distorcida, revelando uma representa&#231;&#227;o do mal de rara complexidade, justamente porque exp&#245;e os mecanismos de racionaliza&#231;&#227;o que sustentam a viol&#234;ncia. O cotidiano da institui&#231;&#227;o, por sua vez, &#233; retratado com uma densidade que refor&#231;a a sua verossimilhan&#231;a, tornando ainda mais perturbadora a forma como o cuidado, a disciplina e o discurso pastoral s&#227;o progressivamente corrompidos e convertidos em cru&#233;is instrumentos de controle, submiss&#227;o e domina&#231;&#227;o.</p><p>Tendo a <strong>perversidade</strong> como eixo central calcado na estrutura, no desmentido e na disciplina, o conceito de pervers&#227;o atua como o pilar estruturante das a&#231;&#245;es do Irm&#227;o Lavin no orfanato, pois, longe de ser compreendida apenas como um desvio das metas sexuais, a pervers&#227;o revela-se, em termos psicanal&#237;ticos e sociais, como uma forma de posicionamento do sujeito perante a Lei e o Outro. Manifestando-se atrav&#233;s do gozo s&#225;dico, a pervers&#227;o atua como o verdadeiro negativo da liberdade, a qual, como assinala Elisabeth Roudinesco: </p><p>&#8220;Uma esp&#233;cie de negativo da liberdade: aniquilamento, desumaniza&#231;&#227;o, &#243;dio, destrui&#231;&#227;o, dom&#237;nio, crueldade, gozo&#8221; (ROUDINESCO, 2008, p. 15). </p><p>&#201; precisamente fundamentado nessa din&#226;mica obscura que, no orfanato S&#227;o Vicente, o Irm&#227;o Lavin instaura um microuniverso fechado e totalit&#225;rio, pervertendo a ordem da prote&#231;&#227;o e da caridade crist&#227; com o intuito de erigir uma r&#237;gida &#8220;disciplina&#8221; baseada no controle absoluto dos corpos infantis (ROUDINESCO, 2008, p. 18-19).</p><p>A perversidade do agressor manifesta-se no cinismo com que ele manipula o significante materno e espiritual: o filme choca ao mostrar Lavin exigindo que os meninos violentados o chamem de &#8220;m&#227;e&#8221; durante os atos de agress&#227;o. O perverso, conforme Roudinesco (2008, p. 14), circula deleitosamente num universo onde imita e parodia a norma divina ou social para solapar o interdito da castra&#231;&#227;o. Ao for&#231;ar a crian&#231;a a trat&#225;-lo por &#8220;m&#227;e&#8221;, Lavin renega a fun&#231;&#227;o paterna limitadora e se coloca como o dono absoluto do corpo do infantil, instrumentalizando-o.</p><p>Roudinesco ressalta ainda a frieza l&#250;cida do ped&#243;filo e do perverso no ato do abuso:</p><p>&#8220;Porque s&#227;o perversos, e n&#227;o loucos ou delirantes, os ped&#243;filos passam ao ato em plena lucidez, ap&#243;s terem verificado que nenhum perigo os amea&#231;a: proximidade de um policial, de testemunhas, resist&#234;ncia da crian&#231;a &#224; sedu&#231;&#227;o etc. Portanto, digam o que disserem, eles controlam sua puls&#227;o&#8221; [...]. (ROUDINESCO, 2008, p. 235).</p><p>Essa lucidez estrat&#233;gica transparece na conduta de Lavin: ele opera nas sombras da noite, apoia-se no prest&#237;gio da batina e utiliza a estrutura eclesial para garantir sua impunidade. O mesmo mecanismo de blindagem se reproduz, de forma alarmante, nos corredores de renomadas escolas particulares. Nelas, o predador n&#227;o veste a batina, mas ostenta o carisma pedag&#243;gico, o tr&#226;nsito livre com o corpo docente, a dire&#231;&#227;o e a estima inquestion&#225;vel das fam&#237;lias, colegas e rela&#231;&#245;es sociais. Assim como na institui&#231;&#227;o religiosa, a escola privada converte o prest&#237;gio em salvo-conduto. O docente &#8220;acima de qualquer suspeita&#8221; constr&#243;i pacientemente uma teia de confian&#231;a: &#233; o professor adorado pelos alunos, o conselheiro sol&#237;cito dos pais, o pilar de excel&#234;ncia do corpo docente. &#201; justamente sob o manto dessa reputa&#231;&#227;o impec&#225;vel e do medo velado da institui&#231;&#227;o em proteger sua pr&#243;pria marca e mensalidades que o perigo se oculta, fazendo da alta mensalidade e do status escolar uma falsa ilus&#227;o de seguran&#231;a.</p><p><strong>A Coopta&#231;&#227;o Afetiva, a Sedu&#231;&#227;o Perversa e o Trauma Infantil</strong></p><p>Robert Greene, ao analisar as din&#226;micas de manipula&#231;&#227;o e narcisismo predat&#243;rio, explica que o indiv&#237;duo perverso atrai suas v&#237;timas utilizando uma fachada acolhedora, respeitosa e charmosa, acima de qualquer suspeita para, em seguida, desestabiliz&#225;-las emocionalmente: &#8220;Eles o atraem com demonstra&#231;&#245;es de aten&#231;&#227;o e afeto, depois o seduzem mais para perto com a frieza inevit&#225;vel que se segue. [...] Ao criar dilemas nos quais nada do que voc&#234; diz ou faz &#233; capaz de agradar [...], eles o aterrorizam com essa inseguran&#231;a e, agora, exercem poder sobre as suas emo&#231;&#245;es&#8221;. No filme, a sedu&#231;&#227;o do Irm&#227;o Lavin em rela&#231;&#227;o ao pequeno Kevin e a outros garotos n&#227;o se reduz &#224; for&#231;a bruta; ela &#233; executada mediante uma coopta&#231;&#227;o afetiva desestruturante. O agressor oferece aten&#231;&#227;o privilegiada e falsas promessas de afeto, confundindo a necessidade prim&#225;ria de amor da crian&#231;a &#243;rf&#227; com a viol&#234;ncia da explora&#231;&#227;o sexual. A crian&#231;a, desprovida de defesas, fica imersa numa armadilha em que o abuso &#233; mascarado de cuidado pastoral.</p><p>&#201; exatamente essa armadilha afetiva e a sedu&#231;&#227;o real cometida por um adulto investido de autoridade que rompem brutalmente o escudo protetor da crian&#231;a, inserindo-a na l&#243;gica cl&#237;nica do trauma e do seu desencadeamento. Na perspectiva freudiana, o trauma define-se pela incapacidade do aparelho ps&#237;quico de assimilar um afluxo excessivo de excita&#231;&#227;o. Freud conceitua a viv&#234;ncia traum&#225;tica nos seguintes termos: &#8220;Chamamos assim uma viv&#234;ncia que, em curto espa&#231;o de tempo, traz para a vida ps&#237;quica um tal incremento de est&#237;mulos que sua resolu&#231;&#227;o ou elabora&#231;&#227;o n&#227;o &#233; poss&#237;vel da forma costumeira, disso resultando inevitavelmente perturba&#231;&#245;es duradouras no funcionamento da energia&#8221;. Freud reconhece ainda que, quando o abuso por um parente ou tutor realmente ocorre, estabelece-se um ponto de fixa&#231;&#227;o indel&#233;vel. Como desdobramento cl&#237;nico dessa viola&#231;&#227;o, assinala Luiz Alfredo Garcia-Roza, o car&#225;ter traum&#225;tico de uma experi&#234;ncia sexual precoce atua frequentemente de forma <em>a posteriori</em> (<em>Nachtr&#228;glichkeit</em>): a impress&#227;o gravada na inf&#226;ncia adquire seu real valor desestruturante &#224; medida que o sujeito cresce e confronta o significado da viol&#234;ncia sofrida.</p><p><strong>A Clivagem como Defesa, Culpa e Desencadeamento Cl&#237;nico</strong></p><p>A crian&#231;a abusada dentro de uma institui&#231;&#227;o fechada experimenta um isolamento ps&#237;quico absoluto. Freud lembra que os adultos muitas vezes preferem negar a sexualidade e o sofrimento infantil, reprimindo o testemunho do menor ou rotulando-o como &#8220;fantasia&#8221; ou &#8220;criancice&#8221; (FREUD, 2014, p. 355-356).</p><p>O impacto devastador desse processo &#233; vis&#237;vel na segunda parte do filme, atrav&#233;s do personagem Steven. J&#225; adulto, Steven &#233; convocado a depor na comiss&#227;o de inqu&#233;rito. Durante o julgamento, a defesa do Irm&#227;o Lavin o encosta contra a parede, expondo que Steven, aos 16 anos, impelido pelo ciclo de viol&#234;ncia em que estava imerso no orfanato, havia repetido atos de abuso contra garotos mais novos. Esse momento provoca o <strong>desencadeamento de uma crise ps&#237;quica avassaladora</strong>. Luciene Aparecida Silva e Ilka Franco Ferrari (2021, p. 360-361) explicam que o desencadeamento sintom&#225;tico ou a irrup&#231;&#227;o da ang&#250;stia ocorrem quando a fantasia e as defesas do sujeito entram em colapso diante da impossibilidade de bordear o gozo traum&#225;tico. Diante do tribunal, ao ver sua dor desqualificada e ser confrontado com a culpa induzida pelo pr&#243;prio sistema perverso, o arranjo defensivo de Steven desmorona, culminando em seu suic&#237;dio por overdose. Sua morte tr&#225;gica explicita que a exposi&#231;&#227;o pericial sem o devido amparo &#233;tico pode revitimizar o sujeito e reativar a for&#231;a destrutiva do trauma original.</p><p>Al&#233;m disso, a obra constitui uma profunda ilustra&#231;&#227;o do campo da psicologia jur&#237;dica e da psican&#225;lise aplicada ao direito, ao abordar a ruptura do pacto de sil&#234;ncio institucional e os desafios da valida&#231;&#227;o forense do testemunho retrospectivo de v&#237;timas de abuso infantil. Durante d&#233;cadas, os crimes cometidos no orfanato foram encobertos por inst&#226;ncias governamentais e eclesi&#225;sticas, refletindo uma din&#226;mica hist&#243;rica de coniv&#234;ncia e nega&#231;&#227;o que permeou a sociedade at&#233; que, como ressalta Elisabeth Roudinesco, os abusos sexuais cometidos por adultos contra crian&#231;as &#8220;haviam sido por muito tempo dissimulados, tendo sido necess&#225;rias a extens&#227;o da psican&#225;lise, de um lado, e as observa&#231;&#245;es da sexologia, do outro, para que fossem postos em evid&#234;ncia&#8221;. Nesse cen&#225;rio de desocultamento, a per&#237;cia e a busca pela verdade no contexto forense exigem dos investigadores uma escuta altamente qualificada, sobretudo diante da complexidade psicol&#243;gica intr&#237;nseca aos depoimentos. Em seu ensaio <em>A Instru&#231;&#227;o Judicial e a Psican&#225;lise</em>, Freud j&#225; advertia sobre os meandros desse processo, observando que &#8220;o neur&#243;tico adulto age nesse ponto, e em muitos outros, exatamente como uma crian&#231;a&#8221;, pontuando o enorme desafio da t&#233;cnica jur&#237;dica em conseguir &#8220;distinguir entre os que acusam a si mesmos e os verdadeiros culpados&#8221;. Na trama, a valida&#231;&#227;o do depoimento de Kevin e dos demais sobreviventes &#8212; colhido anos mais tarde, j&#225; na vida adulta &#8212; confronta frontalmente a estrat&#233;gia t&#237;pica do agressor perverso, que tenta imputar a culpa e a falsidade &#224;s pr&#243;prias v&#237;timas. Em &#250;ltima an&#225;lise, &#233; a contundente atua&#231;&#227;o de Kevin no tribunal, catalisada pela trag&#233;dia do suic&#237;dio de Steven, que estilha&#231;a definitivamente a narrativa de desmentido mantida por Lavin, obrigando o sistema judici&#225;rio a reconhecer a materialidade dos crimes e a responsabilizar, de forma irrevog&#225;vel, as figuras de autoridade.</p><p><strong>E a luz se acende...</strong></p><p><em>The Boys of St. Vincent</em> permanece como uma obra fundamental para a reflex&#227;o psicanal&#237;tica, sociol&#243;gica e jur&#237;dica. Ao centrar o foco na perversidade, a narrativa demonstra que o abuso institucional n&#227;o &#233; um acidente fortuito, mas o resultado de uma estrutura que permite ao perverso travestir o gozo destrutivo em discurso de prote&#231;&#227;o e salva&#231;&#227;o. A articula&#231;&#227;o entre os textos de Freud, Roudinesco, Greene, Garcia-Roza e a literatura cl&#237;nica contempor&#226;nea demonstra como a coopta&#231;&#227;o afetiva paralisa a v&#237;tima, o trauma infantil perdura atrav&#233;s dos anos e a valida&#231;&#227;o &#233;tica do testemunho &#233; o &#250;nico caminho para interromper a perpetua&#231;&#227;o da viol&#234;ncia institucional.</p><p><strong>REFER&#202;NCIAS BIBLIOGR&#193;FICAS</strong></p><p>ANSEN, David. Unspeakable Acts, Uncompromising Art. <strong>Newsweek</strong>, New York, 1993. Resenha do filme <em>The Boys of St. Vincent</em>.</p><ul><li><p>FREUD, Sigmund. A instru&#231;&#227;o judicial e a psican&#225;lise (1906). <em>In</em>: FREUD, Sigmund. <strong>Obras completas, volume 8</strong>: O del&#237;rio e os sonhos na Gradiva, An&#225;lise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909). Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 203-216.</p></li><li><p>FREUD, Sigmund. Confer&#234;ncia XVIII: A fixa&#231;&#227;o no trauma, o inconsciente (1917). <em>In</em>: FREUD, Sigmund. <strong>Obras completas, volume 13</strong>: Confer&#234;ncias introduit&#243;rias &#224; psican&#225;lise (1916-1917). Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 361-375.</p></li><li><p>FREUD, Sigmund. Confer&#234;ncia XX: A vida sexual dos seres humanos (1917). <em>In</em>: FREUD, Sigmund. <strong>Obras completas, volume 13</strong>: Confer&#234;ncias introduit&#243;rias &#224; psican&#225;lise (1916-1917). Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 396-416.</p></li><li><p>GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. <strong>Introdu&#231;&#227;o &#224; metapsicologia freudiana, volume 2</strong>: A teoria pulsional. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.</p></li><li><p>GREENE, Robert. <strong>As leis da natureza humana</strong>. Tradu&#231;&#227;o de Claudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.</p></li><li><p>MASLIN, Janet. Review/Film; Suffer the Little Children, And Suffer Again Later. <strong>The New York Times</strong>, New York, 19 fev. 1993. Se&#231;&#227;o Movies.</p></li><li><p>ROUDINESCO, Elisabeth. <strong>A parte obscura de n&#243;s mesmos</strong>: uma hist&#243;ria dos perversos. Tradu&#231;&#227;o de Andr&#233; Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.</p></li><li><p>SILVA, Luciene Aparecida; FERRARI, Ilka Franco. Desencadeamento na neurose e sua rela&#231;&#227;o com o sinthoma e a fun&#231;&#227;o do analista no contexto da cl&#237;nica na atualidade. <strong>Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental</strong>, S&#227;o Paulo, v. 24, n. 2, p. 356-376, jun. 2021.</p></li><li><p>THE BOYS of St. Vincent. Dire&#231;&#227;o: John N. Smith. Produ&#231;&#227;o: Les Productions T&#233;l&#233;-Action Inc., National Film Board of Canada (NFB), Canadian Broadcasting Corporation (CBC). Canad&#225;, 1992. Miniss&#233;rie/Telefilme (186 min.).</p></li></ul>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[UMA LEITURA ANALÍTICA DO FILME "PSICOSE", O ÉDIPO INVERTIDO E A CLÍNICA CONTEMPORÂNEA]]></title><description><![CDATA[O cinema, em suas manifesta&#231;&#245;es mais profundas, atua como um espelho das complexidades da mente humana.]]></description><link>https://narcisodeoliveira.substack.com/p/uma-leitura-simbolica-analitica-do</link><guid isPermaLink="false">https://narcisodeoliveira.substack.com/p/uma-leitura-simbolica-analitica-do</guid><dc:creator><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Jul 2026 12:55:41 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6ff9ff1e-51d0-4ffb-89d3-47694a9b9df8_2752x1051.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O cinema, em suas manifesta&#231;&#245;es mais profundas, atua como um espelho das complexidades da mente humana. Obras cinematogr&#225;ficas refinadas lidam diretamente com as transgress&#245;es e as din&#226;micas ps&#237;quicas, ajudando a exibir &#8220;nossa pr&#243;pria negatividade, a parte obscura de n&#243;s mesmos&#8221;. Em <em>Psicose</em> (1960, Alfred Hitchcock) <a href="https://www.imdb.com/title/tt0054215/">Imdb</a>,  a estrutura&#231;&#227;o ps&#237;quica do protagonista Norman Bates oferece um terreno f&#233;rtil para a psican&#225;lise, servindo como um paradigma visual e narrativo para a compreens&#227;o de um quadro cl&#237;nico complexo que opera sob a &#243;tica do Complexo de &#201;dipo invertido. Al&#233;m disso, a an&#225;lise dessas constru&#231;&#245;es ps&#237;quicas extremas e ficcionais permite lan&#231;ar luz sobre as chamadas &#8220;neuroses ordin&#225;rias&#8221; e as novas formas de padecimento ps&#237;quico da atualidade, estabelecendo uma ponte entre o sujeito cl&#225;ssico freudiano e o indiv&#237;duo contempor&#226;neo.</p><p><strong>A REVERS&#195;O ED&#205;PICA E A BISSEXUALIDADE PS&#205;QUICA</strong></p><p>A base te&#243;rica para a compreens&#227;o do drama de Norman Bates encontra-se na concep&#231;&#227;o freudiana da bissexualidade ps&#237;quica. Freud postula que o desenvolvimento psicossexual n&#227;o segue um roteiro &#250;nico e inflex&#237;vel; ao contr&#225;rio, a constitui&#231;&#227;o original da psique demonstra que &#8220;o indiv&#237;duo quer satisfazer tanto os desejos masculinos como os femininos&#8221;. Consequentemente, &#8220;o complexo de &#201;dipo pode revelar maior ou menor for&#231;a em seu desenvolvimento, e pode tamb&#233;m experimentar uma revers&#227;o&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">No &#201;dipo tradicional (positivo), o menino direciona seu desejo er&#243;tico &#224; m&#227;e e sua hostilidade rival ao pai. No entanto, no <strong>&#201;dipo invertido (ou negativo)</strong>, a din&#226;mica pulsional se inverte: o afeto e o desejo s&#227;o direcionados &#224; figura paterna (ou seus substitutos), enquanto a hostilidade, a rivalidade ou uma <strong>identifica&#231;&#227;o maci&#231;a</strong> se voltam para a figura materna. &#201; precisamente essa identifica&#231;&#227;o absoluta e patol&#243;gica que Hitchcock explora ao conceber a mente fraturada de seu protagonista.</p><p><strong>NORMAN BATES: A IDENTIFICA&#199;&#195;O E O SUPEREU TIR&#194;NICO</strong></p><p style="text-align: justify;">Em Norman Bates, a estrutura do &#201;dipo invertido manifesta-se de forma tr&#225;gica e literal. Norman n&#227;o deseja possuir a m&#227;e como um objeto externo a ser amado; ele a introjeta de modo canibal&#237;stico. Na metapsicologia psicanal&#237;tica, quando a via direta para o objeto prim&#225;rio &#233; interditada ou sofre fortes abalos, &#8220;o investimento objetal &#233; substitu&#237;do por uma identifica&#231;&#227;o&#8221;. O sujeito freudiano nos mostra que, quando algu&#233;m perde um objeto amado, &#8220;com frequ&#234;ncia compensa isso identificando-se com ele, instaurando-o novamente dentro de seu Eu&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">O jovem Norman recolhe a m&#227;e para dentro de seu pr&#243;prio eu, fundindo-se a ela para eliminar qualquer risco de perda ou separa&#231;&#227;o. Ele a preserva em seu aparelho ps&#237;quico transformando-a em um &#8220;Supereu por vezes incentivador, cruel e excitante&#8221;. Como Freud adverte ao tratar da g&#234;nese da consci&#234;ncia moral, o rigor do Supereu deriva muitas vezes da agressividade da pr&#243;pria crian&#231;a contra a autoridade parental, agressividade essa que n&#227;o p&#244;de ser externalizada e acabou internalizada. Assim, &#8220;o Super-eu atormenta o Eu pecador com as mesmas sensa&#231;&#245;es de ang&#250;stia&#8221;. Essa identifica&#231;&#227;o narc&#237;sica faz com que a personalidade da &#8220;M&#227;e&#8221; se instale em sua mente como um supervisor moral punitivo e tir&#226;nico. Quando Marion Crane desperta o desejo de Norman, a &#8220;M&#227;e&#8221; pune e sabota essa atra&#231;&#227;o, pois a lealdade libidinal do sujeito est&#225; presa &#224; esfera materna introjetada.</p><p><strong>A SOMBRA, A ANG&#218;STIA E O DESENCADEAMENTO</strong></p><p style="text-align: justify;">A dualidade de Norman exemplifica brilhantemente o conceito de possess&#227;o pela Sombra (arqu&#233;tipo junguiano e anal&#237;tico), que &#8220;consiste de todas as qualidades que as pessoas tentam negar sobre si mesmas e reprimir&#8221;. O comportamento af&#225;vel, polido e t&#237;mido de Norman &#233; a fachada necess&#225;ria que esconde a sua Sombra homicida.</p><p style="text-align: justify;">O desencadeamento de seu surto segue a l&#243;gica psicanal&#237;tica: o desencadeamento n&#227;o &#233; apenas uma mudan&#231;a no mundo externo, mas &#8220;uma irrup&#231;&#227;o, corte, trope&#231;o, desconcerto&#8221;. Trata-se do &#8220;encontro com algo incompreens&#237;vel e inevit&#225;vel&#8221;. Sem conseguir elaborar a ang&#250;stia provocada pela presen&#231;a da mulher atraente, a solu&#231;&#227;o prec&#225;ria que organizava o mundo de Norman vacila. Lacan ensina que a loucura pode coincidir com o fracasso da solu&#231;&#227;o pr&#233;via, o colapso do <em>sinthoma</em>. As defesas do Eu colapsam e a ang&#250;stia, que deveria operar como um mero sinal de alerta, &#233; inteiramente substitu&#237;da pela forma&#231;&#227;o do sintoma violento e pela passagem ao ato. Norman deixa de existir como sujeito aut&#244;nomo e cede lugar &#224; &#8220;M&#227;e&#8221;.</p><p><strong>AS NEUROSES CONTEMPOR&#194;NEAS E A CL&#205;NICA DO N&#195;O DESENCADEAMENTO</strong></p><p>Para tornarmos esta an&#225;lise estrutural mais robusta, &#233; fundamental contrapor a eclos&#227;o ruidosa e tr&#225;gica de um Norman Bates com a configura&#231;&#227;o das neuroses na contemporaneidade. Se em <em>Psicose</em> vemos um desencadeamento fulminante pela falha da fantasia, a cl&#237;nica atual depara-se predominantemente com o fen&#244;meno inverso: o adormecimento do sujeito e o <strong>n&#227;o desencadeamento</strong>.</p><p>Vivemos sob a &#233;gide do &#8220;decl&#237;nio do viril, do Nome-do-Pai, e a consequente ascens&#227;o do objeto <em>a</em> ao z&#234;nite social&#8221;. A sociedade governada pelo discurso capitalista e tecnol&#243;gico imp&#245;e um imperativo de gozar, oferecendo uma disposi&#231;&#227;o infinita de objetos consum&#237;veis. Como resultado direto desse novo enla&#231;amento social, emerge o que a cl&#237;nica tem chamado de <strong>&#8220;neuroses ordin&#225;rias&#8221;</strong> &#8212; condi&#231;&#245;es em que o sujeito n&#227;o apresenta os sintomas cl&#225;ssicos (como as ruidosas convers&#245;es hist&#233;ricas ou as paralisantes fobias de outrora), mantendo-se de forma &#8220;n&#227;o desencadeada&#8221;.</p><p>Diferentemente de Norman, cujo conflito insuport&#225;vel entre o desejo e a Lei maternal introjetada o lan&#231;a &#224; loucura literal, o neur&#243;tico de hoje frequentemente se recusa a formular uma pergunta sobre o seu desejo e sobre o pr&#243;prio gozo. Na contemporaneidade, &#8220;a grande maioria das pessoas n&#227;o precisa consultar o psicanalista: a compensa&#231;&#227;o, a estabilidade &#233; a regra. O desencadeamento franco &#233; exce&#231;&#227;o. O ser humano m&#233;dio se mant&#233;m... dormindo&#8221;.</p><p>Os modos de tamponar a ang&#250;stia mudaram. Como aponta Darian Leader, transitamos da &#8220;era da ansiedade&#8221; e da &#8220;era dos antidepressivos&#8221; para os &#8220;tempos bipolares&#8221;, em que o sofrimento ps&#237;quico &#233; rapidamente medicalizado sob a promessa de estabilizar o humor a qualquer custo. No lugar da elabora&#231;&#227;o anal&#237;tica, instaura-se uma &#8220;vasta tirania da confiss&#227;o&#8221;, vis&#237;vel na prolifera&#231;&#227;o de <em>reality shows</em> e na exposi&#231;&#227;o p&#250;blica da intimidade, que operam como o &#8220;novo hosp&#237;cio dos tempos modernos&#8221; sob o manto da vigil&#226;ncia infinita e do puritanismo travestido de pornografia.</p><p>Nesse cen&#225;rio, o sujeito contempor&#226;neo muitas vezes ocupa a posi&#231;&#227;o de &#8220;cliente que tem sempre raz&#227;o&#8221;, o que gera uma &#8220;refratariedade ao inconsciente e, logo, a impossibilidade transferencial&#8221;. A fun&#231;&#227;o do psicanalista sofre, portanto, uma tor&#231;&#227;o &#233;tica e t&#233;cnica para os dias de hoje: em vez de apenas decifrar o sintoma j&#225; instaurado, o analista deve visar o &#8220;inconsciente aut&#237;stico&#8221; para <strong>&#8220;perturbar a defesa&#8221;</strong>. A tarefa cl&#237;nica contempor&#226;nea &#233; desmontar as falsas estabilidades para que o sujeito possa, finalmente, despertar, formular uma interroga&#231;&#227;o sobre o Real e &#8220;fazer desencadear, fazer sintoma&#8221;.</p><p><strong>E A LUZ SE ACENDE</strong></p><p>Nas cenas finais e emblem&#225;ticas de <em>Psicose</em>, Norman &#233; levado ao por&#227;o da velha casa. Quando a luz finalmente balan&#231;a e ilumina o ambiente, revelando o cad&#225;ver mumificado da Sra. Bates, a luz se acende n&#227;o apenas no espa&#231;o f&#237;sico, mas metaforicamente para a compreens&#227;o cl&#237;nica e simb&#243;lica de sua estrutura ps&#237;quica. A m&#227;e literal &#233; apenas um esqueleto vazio, mas a m&#227;e psicol&#243;gica est&#225; plenamente viva, tendo engolido e aniquilado o eu de Norman.</p><p>A leitura simb&#243;lica do desfecho nos mostra que o &#201;dipo invertido, quando levado &#224;s suas &#250;ltimas consequ&#234;ncias psicopatol&#243;gicas e n&#227;o elaborado pelo sujeito, resulta na aniquila&#231;&#227;o completa da identidade. A mente de Norman torna-se o verdadeiro sarc&#243;fago onde a m&#227;e continua a governar.</p><p>Com <em>Psicose</em>, a arte cinematogr&#225;fica demonstra o seu poder de psicanalisar a condi&#231;&#227;o humana. Ela n&#227;o apenas ilustra de maneira magistral as armadilhas da identifica&#231;&#227;o prim&#225;ria e o desastre de um desencadeamento mal-sucedido, mas tamb&#233;m serve como um alerta perene. Seja no estrondo macabro da possess&#227;o psic&#243;tica de Norman Bates, ou no sil&#234;ncio anestesiado das neuroses ordin&#225;rias de nossa &#233;poca em que os indiv&#237;duos &#8220;se mant&#234;m dormindo&#8221; sob o v&#233;u do consumo, a li&#231;&#227;o permanece: esquivar-se do abismo do pr&#243;prio desejo e dos fantasmas de nossa heran&#231;a familiar &#233; ceder o controle absoluto de nossos atos &#224;quilo que mais negamos. Somente perturbando as defesas que nos anestesiam &#233; poss&#237;vel, finalmente, acender a luz.</p><p style="text-align: justify;"><strong>REFER&#202;NCIA BIBLIOGR&#193;FICA</strong></p><p style="text-align: justify;"><strong>FREUD, Sigmund.</strong> <em>Neuroses de transfer&#234;ncia: uma s&#237;ntese</em>. Organiza&#231;&#227;o, notas e ensaio complementar de Ilse Grubrich-Simitis. Tradu&#231;&#227;o de Abram Eksterman. Rio de Janeiro: Imago, 1987.</p><p><strong>FREUD, Sigmund.</strong> <em>Obras completas, volume 4: A interpreta&#231;&#227;o dos sonhos (1900)</em>. Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2019.</p><p><strong>FREUD, Sigmund.</strong> <em>Obras completas, volume 8: O del&#237;rio e os sonhos na Gradiva, an&#225;lise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909)</em>. Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2014.</p><p><strong>FREUD, Sigmund.</strong> <em>Obras completas, volume 13: Confer&#234;ncias introdut&#243;rias &#224; psican&#225;lise (1916-1917)</em>. Tradu&#231;&#227;o de Sergio Tellaroli. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2014.</p><p><strong>FREUD, Sigmund.</strong> <em>Obras completas, volume 18: O mal-estar na civiliza&#231;&#227;o, novas confer&#234;ncias introdut&#243;rias &#224; psican&#225;lise e outros textos (1930-1936)</em>. Tradu&#231;&#227;o de Paulo C&#233;sar de Souza. S&#227;o Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p><p><strong>GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo.</strong> <em>Introdu&#231;&#227;o &#224; metapsicologia freudiana, volume 2: a interpreta&#231;&#227;o do sonho (1900)</em>. 8. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.</p><p><strong>GREENE, Robert.</strong> <em>As leis da natureza humana</em>. Tradu&#231;&#227;o de Angela Tesheiner. S&#227;o Paulo: Planeta, 2021.</p><p><strong>LACAN, Jacques.</strong> <em>A identifica&#231;&#227;o: Semin&#225;rio 1961-1962</em>. Tradu&#231;&#227;o de Ivan Corr&#234;a e Marcos Bagno. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.</p><p><strong>ROUDINESCO, Elisabeth.</strong> <em>A parte obscura de n&#243;s mesmos: uma hist&#243;ria dos perversos</em>. Tradu&#231;&#227;o de Andr&#233; Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.</p><p><strong>SILVA, Luciene Aparecida; FERRARI, Ilka Franco.</strong> Desencadeamento na neurose e sua rela&#231;&#227;o com o sinthoma e a fun&#231;&#227;o do analista no contexto da cl&#237;nica na atualidade. <em>Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental</em>, S&#227;o Paulo, v. 24, n. 2, p. 356-376, jun. 2021.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[UMA LEITURA SIMBÓLICA DO FILME TERRA ESTRANGEIRA]]></title><description><![CDATA[Terra Estrangeira (1996, Walter Sales e Daniela Thomas) Imdb &#233; um filme que retrata a contemporaneidade da juventude abordando uma das maiores problem&#225;ticas mundiais: a crise de identidade.]]></description><link>https://narcisodeoliveira.substack.com/p/uma-leitura-simbolica-do-filme-terra</link><guid isPermaLink="false">https://narcisodeoliveira.substack.com/p/uma-leitura-simbolica-do-filme-terra</guid><dc:creator><![CDATA[Narciso de Oliveira]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Jul 2026 13:57:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/6c47575f-7b96-45ba-b076-ec9784584aa0_2848x1504.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Terra Estrangeira (1996, Walter Sales e Daniela Thomas) </em> <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0114651/">Imdb</a> &#233; um filme que retrata a contemporaneidade da juventude abordando uma das maiores problem&#225;ticas mundiais: a crise de identidade. O enfoque maior se faz na crise identit&#225;ria brasileira, pois a narrativa tem como protagonistas personagens brasileiros em desajuste consigo pr&#243;prios e com seu contexto social.</p><p style="text-align: justify;">Elegi o filme como objeto de estudo por pens&#225;-lo como um harmonioso conjunto de linguagens po&#233;ticas: texto e imagens; al&#233;m de evidenciar o sentimento de estrangeirismo pessoal no qual estou pessoalmente inserido.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://narcisodeoliveira.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p style="text-align: justify;">Meu objetivo foi a interpreta&#231;&#227;o de alguns recursos visuais metaf&#243;ricos encontrados no filme relativos &#224; narrativa. Procurei ainda observar a est&#233;tica e o conte&#250;do presentes nas sequ&#234;ncias. Para isso, recolhi dados sobre o contexto hist&#243;rico referente &#224; realidade em quest&#227;o e, em seguida, utilizei-me da t&#233;cnica de decupagem f&#237;lmica, isolando sequ&#234;ncias que evidenciassem mais substancialmente os momentos mais significantes referentes &#224; quest&#227;o da identidade. A partir desse momento, desenvolvi uma leitura simb&#243;lica de tr&#234;s sequ&#234;ncias eleitas como relevantes, desmembrando seus respectivos conte&#250;dos e nomeando-as como sequ&#234;ncias A, B e C.</p><p style="text-align: justify;">A sequ&#234;ncia &#8220;A&#8221; tem, em seu texto, o recurso principal para levantar o fator identidade em crise. Baseei minha an&#225;lise no autor Stuart Hall, respons&#225;vel por um pensamento bastante elucidativo a respeito da defini&#231;&#227;o do homem e seus pap&#233;is dentro de uma sociedade em transforma&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Em rela&#231;&#227;o &#224;s t&#233;cnicas cinematogr&#225;ficas, elegi as sequ&#234;ncias &#8220;B&#8221; e &#8220;C&#8221; por possu&#237;rem registros de imagens metaf&#243;ricas indel&#233;veis. Para melhor compreens&#227;o de tais recursos e suas finalidades, v&#225;rios estudiosos da &#225;rea foram essenciais, entre eles: Terence Marner, Andr&#233; Bazin, Christian Metz, Francis Vanoye e Anne Goliot-Let&#233;.</p><p style="text-align: justify;">Sobre a sequ&#234;ncia &#8220;C&#8221;, al&#233;m de abordar os recursos t&#233;cnicos, teci coment&#225;rios sobre seu conte&#250;do, tendo como refer&#234;ncia a Psicossociologia, a fim de melhor compreender e esclarecer certas quest&#245;es abordadas no filme. Para tanto, utilizei-me de textos de Fran&#231;ois Flahault.</p><h3>Na Po&#233;tica de &#8220;Terra Estrangeira&#8221;: O Percurso da Identidade</h3><p>Ao analisar o universo sem&#226;ntico de uma produ&#231;&#227;o f&#237;lmica, devemos saber que estamos diante de uma complexa pluralidade de s&#237;mbolos e de v&#225;rios n&#237;veis de leitura.</p><p>A an&#225;lise de um filme consiste em mergulhar em um processo de conhecimento do material estudado, examinando-o t&#233;cnica e emocionalmente, a partir de uma recep&#231;&#227;o sistem&#225;tica e intuitiva, desmembrando-o em fragmentos individuais e significativos para, posteriormente, tecer uma teia reconstrutora, considerando a pr&#243;pria compreens&#227;o e interpreta&#231;&#227;o.</p><p>O filme &#233; uma janela capaz de nos transportar para dentro ou para fora de nossa realidade, permitindo-nos, como espectadores no limiar dessa janela, desenvolver uma vis&#227;o intuitiva ou emotiva, levando em conta a identifica&#231;&#227;o, que pode ou n&#227;o ocorrer, ou ainda agu&#231;ar um olhar estruturado e racional, buscando, no distanciamento, o recurso mais t&#233;cnico para a an&#225;lise.</p><p>&#201; inevit&#225;vel a compara&#231;&#227;o dessas duas t&#225;ticas distintas com duas for&#231;as emocionais inerentes ao ser humano: a intuitiva e a sistem&#225;tica. Quando levados pela primeira, pouco usamos a racionalidade: justificamos um sentimento intuitivo puramente por sua &#8220;n&#227;o explica&#231;&#227;o&#8221;, &#224;s vezes encontrando justificativa em uma est&#233;tica que nos toca profundamente. J&#225; quando a raz&#227;o prevalece, estamos diante de estudo, descobrimento e adapta&#231;&#227;o metodol&#243;gica.</p><p>A primeira vez que vi <em>Terra Estrangeira</em>, fui conquistado por sua beleza e riqueza est&#233;tica. Cada sequ&#234;ncia era uma obra de arte digna de ineg&#225;vel admira&#231;&#227;o. Por&#233;m, senti necessidade de entrar em um processo de pesquisa, desmembrando seu rico conte&#250;do a fim de mostrar o que existe por detr&#225;s de t&#227;o belas sequ&#234;ncias de imagens, quase sempre po&#233;ticas.</p><p>A interpreta&#231;&#227;o cr&#237;tica de um conte&#250;do busca o sentido e a forma&#231;&#227;o t&#233;cnica deste sentido, estudando os recursos que o autor utilizou para tornar percept&#237;veis, mais ou menos explicitamente, suas ideias e inten&#231;&#245;es. O principal recurso usado para a produ&#231;&#227;o da po&#233;tica de <em>Terra Estrangeira</em> &#233; a simples apresenta&#231;&#227;o da vida e da frustra&#231;&#227;o cotidiana do povo brasileiro. Sem uma linguagem demasiadamente rebuscada ou fora de nossa realidade, o filme retrata de modo hist&#243;rico-cultural um fator inerente ao povo brasileiro, principalmente os que tiveram sua juventude vivida no final dos anos 80 e em toda a d&#233;cada de 90: a crise de identidade. <span>Esta fratura subjetiva encontra um eco metapsicol&#243;gico profundo na obra de Sigmund Freud, mais especificamente em </span><em><span>O Mal-Estar na Civiliza&#231;&#227;o</span></em><span>. Nele, Freud postula que o pre&#231;o do avan&#231;o civilizacional e a integra&#231;&#227;o do sujeito na comunidade exigem uma ren&#250;ncia instintual sistem&#225;tica, gerando uma permanente &#8220;frustra&#231;&#227;o cultural&#8221; e um sentimento de desamparo que a civiliza&#231;&#227;o tenta mitigar, mas que frequentemente se converte em um persistente mal-estar.</span></p><p><span>Quando transportamos essa premissa para a virada das d&#233;cadas de 1980 e 1990, a crise identit&#225;ria deixa de ser um mero desajuste geracional e assume o car&#225;ter de uma leg&#237;tima neurose social. O colapso das ilus&#245;es institucionais e a viol&#234;ncia econ&#244;mica daquele per&#237;odo operaram como um trauma coletivo, uma &#8220;mis&#233;ria psicol&#243;gica da massa&#8221; que privou o indiv&#237;duo de seus pontos de fixa&#231;&#227;o e de seus referenciais seguros de identifica&#231;&#227;o.</span></p><p><span>Longe de estancar-se na barreira do tempo, esse processo de fraturamento da subjetividade veio se acentuando de maneira geom&#233;trica nas primeiras d&#233;cadas do s&#233;culo XXI. A transi&#231;&#227;o para uma sociedade de consumo hiperconectada n&#227;o proveu o prometido sentimento de perten&#231;a; ao contr&#225;rio, a liquidez das fronteiras modernas, a dissolu&#231;&#227;o das inst&#226;ncias tradicionais de autoridade e a precariza&#231;&#227;o cr&#244;nica do cotidiano apenas aprofundaram a tens&#227;o entre o ideal do Eu e as exig&#234;ncias tir&#226;nicas de uma realidade que cansa e esvazia o sujeito. O estrangeirismo existencial que o filme capturava na juventude de noventa espalhou-se, hoje, como uma epidemia contempor&#226;nea global: o indiv&#237;duo p&#243;s-moderno descobriu que, quanto mais a t&#233;cnica expande suas conex&#245;es externas, mais ele se fragmenta internamente em identidades contradit&#243;rias, permanecendo exilado e permanentemente &#243;rf&#227;o de um solo que possa chamar de lar.</span></p><p>De acordo com a concep&#231;&#227;o interativa da identidade e do eu, elaborada por G. H. Mead e C. H. Cooley (1997), a identidade &#233; formada na intera&#231;&#227;o entre o eu e a sociedade.</p><blockquote><p>&#8220;O fato de que projetamos a &#8216;n&#243;s pr&#243;prios&#8217; nossas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os &#8216;parte de n&#243;s&#8217;, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, ent&#227;o, costura (ou, para usar uma met&#225;fora m&#233;dica), &#8216;sutura&#8217; o sujeito &#224; estrutura&#8221; (HALL, 1997, p. 14).</p></blockquote><p>O sujeito tem uma ess&#234;ncia interior (eu real) que &#233; formada e modificada a partir do contato cont&#237;nuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem. A identidade preenche o espa&#231;o entre o interior (mundo pessoal) e o exterior (mundo p&#250;blico), concatenando o sujeito ao meio social. Entretanto, considerando um contexto mais atual, destaca-se a figura do indiv&#237;duo p&#243;s-moderno, n&#227;o possuidor de uma identidade invari&#225;vel ou permanente, mas sim mold&#225;vel em rela&#231;&#227;o &#224; sua socializa&#231;&#227;o, definida a partir de sua hist&#243;ria e n&#227;o herdada biologicamente. Em rela&#231;&#227;o &#224; identidade do homem p&#243;s-moderno, Stuart Hall comenta:</p><blockquote><p>&#8220;Dentro de n&#243;s h&#225; identidades contradit&#243;rias, empurrando em diferentes dire&#231;&#245;es, de tal modo que nossas identifica&#231;&#245;es est&#227;o sendo continuamente deslocadas. Se sentirmos que temos uma identidade unificada desde o nascimento at&#233; a morte, &#233; apenas porque constru&#237;mos uma c&#244;moda est&#243;ria sobre n&#243;s mesmos ou uma confortadora &#8216;narrativa do eu&#8217;&#8221; (HALL, 1990, p. 14).</p></blockquote><p>O indiv&#237;duo p&#243;s-moderno se fragmenta em v&#225;rias identidades, &#224;s vezes opostas e n&#227;o resolvidas, tornando, ent&#227;o, incoerente a exist&#234;ncia de uma identidade inquestionavelmente completa e segura. Essa pluraliza&#231;&#227;o de identidades se manifesta quando observamos os diversos pap&#233;is que desempenhamos em nosso meio: em uma segmenta&#231;&#227;o de classe, etnia, g&#234;nero, sexualidade, nacionalidade etc. Portanto, em vez de falarmos em identidade, dever&#237;amos falar em identifica&#231;&#227;o; e &#233; exatamente essa a problem&#225;tica do povo brasileiro, caracterizado por ser um povo sincr&#233;tico, produto de v&#225;rias etnias e culturas &#8220;herdadas e adquiridas&#8221;.</p><p>O processo de identifica&#231;&#227;o com suas ra&#237;zes e territ&#243;rio est&#225; cada vez mais fora da realidade, principalmente a dos jovens, que possuem o sentimento de pertencer a um pa&#237;s pouco promissor, o qual lhes provoca a sensa&#231;&#227;o de estrangeirismo permanente.</p><p>Os jovens de <em>Terra Estrangeira</em>, no intuito de fugir desesperadamente dessa sensa&#231;&#227;o corrosiva, mergulham em uma viagem pelo que h&#225; de mais escondido na sociedade oficial europeia, uma viagem em meio a atitudes indecorosas e marginais, indefini&#231;&#245;es pessoais e drogas que os alucinam f&#237;sica e ideologicamente. Drogas usadas com um mesmo objetivo: a aliena&#231;&#227;o, a fuga de uma realidade n&#227;o aceita e de outra nem sequer conhecida.</p><p>A droga de Miguel o ajuda a suportar a exist&#234;ncia totalmente d&#237;spar daquela que sonhou. A de Paco &#233; simbolizada por seu passaporte, assegurando a &#8220;viagem&#8221; promissora de uma poss&#237;vel satisfa&#231;&#227;o, a de contemplar o que algu&#233;m tanto desejou enquanto tinha uma exist&#234;ncia mergulhada no t&#233;dio do cotidiano.</p><p>&#201; disso que todos eles est&#227;o em busca: de uma Pass&#225;rgada. Por&#233;m, em Lisboa n&#227;o fizeram amizade com o rei, tampouco encontraram a divers&#227;o de uma exist&#234;ncia aventureira. Talvez Portugal represente apenas um ponto na estrada que n&#227;o leva a lugar algum. Um ponto onde o caos &#233; mostrado explicitamente, uma ciranda de estrangeiros, diferentes realidades, sotaques e &#8220;portugueses&#8221; denunciadores de que ali se encontra um pa&#237;s t&#227;o em crise de identidade quanto o Brasil, chegando ao ponto de ser considerado &#224; parte da Europa. E &#233; nessa grande desordem que se pode &#8220;arrebatar&#8221; um passaporte brasileiro pela bagatela de trezentos d&#243;lares, seguido de um condescendente baixar de olhos de quem n&#227;o tem como argumentar e aceita a inferioriza&#231;&#227;o.</p><p>As jovens personagens de <em>Terra Estrangeira</em>, mesmo n&#227;o concebendo seu estrangeirismo apenas pelo vi&#233;s da desterritorializa&#231;&#227;o, sonham mesmo em voltar para casa; sentem falta do conforto de uma paisagem familiar que as arranque do ca&#243;tico inverno europeu, que as direcione ao nada mais denso. Para Paco, o lar &#233; San Sebasti&#225;n, onde poder&#225; sentir novamente um cheiro antigo nunca sentido antes, um lar idealizado agora assumido por Alex que, exausta de seus pr&#243;prios sonhos, toma para si os do amado.</p><p>O fato de ter escolhido <em>Terra Estrangeira</em> n&#227;o se deve apenas por ser uma produ&#231;&#227;o inegavelmente rica no sentido visual, liter&#225;rio e hist&#243;rico, mas sim por possuir uma brasilidade evidente, em vez de perfumar a ferida ou exportar o folclore, o filme mergulha no preto e branco do nosso desterro interno, lembrando-nos de que a aut&#234;ntica brasilidade se revela n&#227;o na celebra&#231;&#227;o de mitos tropicais artificiais, mas na coragem de encarar nossa pr&#243;pria melancolia, nossa solid&#227;o e nossas fraturas identit&#225;rias.</p><p><em>Terra Estrangeira</em> descolore nossa realidade e faz um mergulho no interior do sentimento brasileiro, mostrando-o como realmente &#233;: um universo preto e branco inserido num exterior de utopias, ideologias falsas, aliena&#231;&#227;o e onipresen&#231;a da cultura digital que alimenta nosso escapismo.</p><p>Para transmitir ao p&#250;blico esse retrato da sociedade, Walter Salles e Daniela Thomas (roteiristas e diretores) e Walter Carvalho (diretor de fotografia) usaram diferentes c&#243;digos visuais e verbais, passeando pelo mundo da luz e da escurid&#227;o, da esperan&#231;a e da desilus&#227;o.</p><p>A narrativa tem como contexto hist&#243;rico a gera&#231;&#227;o em crise no Brasil da era Collor, o primeiro e decepcionante presidente eleito democraticamente depois de quase trinta anos de ditadura militar que, ao lado de sua ministra Z&#233;lia Cardoso, protagonizou o golpe do confisco banc&#225;rio, desencadeando grandes mudan&#231;as na vida do povo brasileiro.</p><p>Em meio &#224; dram&#225;tica e cruel beleza pl&#225;stica da arquitetura antropof&#225;gica de S&#227;o Paulo vive Paco, um jovem de 21 anos que sonha em ser ator. Sua m&#227;e, uma idosa e abatida imigrante, possui duas refer&#234;ncias na vida: o &#250;nico filho e sua origem basca. A partir de suas m&#237;seras economias adquiridas como costureira, sonha em voltar a San Sebasti&#225;n e mostrar ao filho suas verdadeiras ra&#237;zes. Por&#233;m, o pesadelo do confisco p&#245;e fim a seus sonhos e a sua vida. Paco, tomado pela dor da perda da m&#227;e, pela solid&#227;o e pela falta de perspectivas, percebe que nada mais o prende ao pa&#237;s; ent&#227;o, aceita uma proposta para levar um violino para Portugal com o objetivo de seguir de l&#225; para a Espanha e conhecer a cidade natal de sua m&#227;e.</p><p>Em Lisboa, seu caminho se cruza com o de Alex, uma brasileira que renegou suas origens aspirando a uma vida melhor fora de seu pa&#237;s. A partir da&#237;, d&#225;-se in&#237;cio a uma jornada que revela todo o sentimento de desnorteamento de quem se sente fora de qualquer contexto e perdido em si pr&#243;prio.</p><blockquote><p>&#8220;Ouve-se frequentemente dizer, em discuss&#245;es cinematogr&#225;ficas, que &#233; pr&#243;prio dos filmes que nos atraem e que vivem em n&#243;s &#8212; ao universo desta univocidade fortemente insuficiente que marca a imposi&#231;&#227;o da produ&#231;&#227;o f&#237;lmica &#8212; poderem ser compreendidos de v&#225;rias maneiras, oferecerem seus simbolismos, fora de qualquer &#8216;castra&#231;&#227;o&#8217; sem&#226;ntica, a v&#225;rios sistemas de interpreta&#231;&#227;o, admitirem v&#225;rios n&#237;veis de leitura. &#201; o tema das &#8216;leituras m&#250;ltiplas&#8217;, que se aplica ao texto f&#237;lmico como a outros tipos de texto, e com justa raz&#227;o.&#8221; (METZ, 1992, p. 140)</p></blockquote><p>No que concerne a esse pensamento relacionado &#224; interpreta&#231;&#227;o do conte&#250;do f&#237;lmico, pretendo mostrar o meu ponto de vista em rela&#231;&#227;o a algumas sequ&#234;ncias que considerei de grande relev&#226;ncia por destacar tr&#234;s fatores b&#225;sicos sustentadores de minha an&#225;lise: as quest&#245;es da linguagem visual, verbal e da identidade que, embora se apresentem diretamente ligadas, possuem suas singularidades dentro do todo.</p><p>Da mesma maneira que uma obra liter&#225;ria &#233; dividida em cap&#237;tulos, um filme &#233; fragmentado em sequ&#234;ncias. Em rela&#231;&#227;o ao processo de an&#225;lise singular do fragmento, Francis Vanoye e Anne Goliot-Let&#233; afirmam em <em>Ensaio sobre a an&#225;lise f&#237;lmica</em>:</p><blockquote><p>&#8220;Desmontar um filme &#233; entender seu registro perceptivo e com isso, se o filme for realmente rico, usufru&#237;-lo melhor [...]. Analisar um filme ou fragmento &#233;, antes de mais nada, no sentido cient&#237;fico do termo, decomp&#244;-lo em seus elementos constitutivos.&#8221; (VANOYE; GOLIOT-LET&#201;, 1994, p. 12, 15)</p></blockquote><p>Portanto, elegi algumas sequ&#234;ncias que abordassem explicitamente as quest&#245;es j&#225; citadas. Devo admitir ter sido uma tarefa extremamente dif&#237;cil, devido &#224; grande variedade de temas a serem discutidos. Mas, por fim, decidi-me pelas sequ&#234;ncias que mais deixam expl&#237;citas as quest&#245;es da busca de identidade, o sentimento estrangeiro e a plasticidade da linguagem visual.</p><h4>SEQU&#202;NCIA A: DIST&#194;NCIA</h4><blockquote><p>&#8220;Pois cada um de n&#243;s entrou neste universo como se entrasse numa cidade estrangeira, com a qual n&#227;o tivesse nenhuma liga&#231;&#227;o antes de nascer; e, uma vez aqui dentro, o homem jamais deixa de ser um h&#243;spede de passagem, at&#233; ter percorrido de um extremo ao outro a dura&#231;&#227;o de vida que lhe houver sido atribu&#237;da...&#8221;&#185;</p></blockquote><p>Santo Agostinho e outros autores da Idade M&#233;dia, baseados no tema do estrangeirismo, segundo a B&#237;blia, elaboraram o tipo humano peregrino. Segundo esse pensamento, Ad&#227;o e Eva, quando expulsos do Para&#237;so, abandonaram sua p&#225;tria, recebendo o estatuto de estrangeiros, emigrados condenados ao ex&#237;lio. Assim, todo indiv&#237;duo que tem sua exist&#234;ncia posterior &#224; de Ad&#227;o e Eva &#233;, consequentemente, um mero passageiro em qualquer territ&#243;rio onde se encontre. Para Santo Agostinho, o homem, mesmo em seu pr&#243;prio pa&#237;s, &#233; um estrangeiro por condi&#231;&#227;o. Portanto, sendo o c&#233;u a &#250;nica p&#225;tria verdadeira, apenas Deus tem cidadania, e os exilados s&#227;o estrangeiros por toda a vida terrena.</p><p>Nesta sequ&#234;ncia, Alex e Miguel, dois brasileiros refugiados da crise e da desesperan&#231;a econ&#244;mica de seu pa&#237;s, contemplam a beleza de Portugal, pa&#237;s cen&#225;rio de um ex&#237;lio mal tragado e sem os ares rom&#226;nticos da clandestinidade.</p><p>Do terra&#231;o de um pr&#233;dio, suspensos do solo estrangeiro, os dois se encontram numa atmosfera de singular cumplicidade, como se envoltos numa bolha temporariamente protetora daquele territ&#243;rio amea&#231;ador. Neste momento, Alex e Miguel est&#227;o totalmente desligados f&#237;sica e emocionalmente do pa&#237;s; s&#227;o solit&#225;rios &#8220;marginais&#8221;, &#224; margem de uma sociedade estranha e que n&#227;o lhes oferece nenhuma perspectiva de mudan&#231;a ou apoio. Encontram um no outro o alicerce necess&#225;rio para n&#227;o desistir da jornada em busca de um conforto na exist&#234;ncia de que se esfor&#231;am para acreditar.</p><p>Pr&#243;ximos ao porto de um pa&#237;s que renega seus pr&#243;prios &#8220;filhos&#8221; brasileiros, cabo-verdianos, angolanos e mo&#231;ambicanos, os dois jovens t&#234;m suas ess&#234;ncias sintetizadas em res&#237;duos subjetivos em que a esperan&#231;a e os sonhos se mesclam com a indiferen&#231;a &#224; vida. O cansa&#231;o em seus olhos e em suas palavras denuncia dois seres cobertos pela melancolia identit&#225;ria e em busca de um recolhimento aparentemente inalcan&#231;&#225;vel.</p><p>Como forma de evidenciar tal sentimento de ang&#250;stia, vejamos o que o texto da sequ&#234;ncia em quest&#227;o tem a nos mostrar:</p><p>&#185; Jean CHEVALIER; Alain GHEERBRANT, <em>Dicion&#225;rio de S&#237;mbolos</em>, p. 403.</p><blockquote><p><strong>Alex:</strong> Eu gosto dessa cidade essa hora... cidade branca... bonito, n&#233;? S&#243; que &#224;s vezes me d&#225; um medo.<br><strong>Miguel:</strong> Medo? Medo de qu&#234;?<br><strong>Alex:</strong> Medo de voc&#234; dan&#231;ar e eu ficar sozinha aqui num lugar que eu nem escolhi para viver.</p></blockquote><p>Alex mostra sua simpatia pela paisagem de Lisboa, vista de longe, atribuindo &#224; cidade a cor branca, resultante da ilumina&#231;&#227;o inerente &#224;quela hora do dia. O branco, cronologicamente, nos remete &#224; paz e &#224; serenidade, caracter&#237;sticas opostas e paradoxais ao meio marginalizado e obscuro no qual as personagens se inserem. Percebe-se a&#237; uma grande dualidade de sentidos, seguida do desabafo de Alex ao mostrar o seu medo da solid&#227;o em um lugar que, mesmo sendo falada a mesma l&#237;ngua, lhe parece um territ&#243;rio insuport&#225;vel e aversivo. E o di&#225;logo persiste na solid&#227;o estrangeira:</p><blockquote><p><strong>Miguel:</strong> A gente pode ir para onde voc&#234; quiser, Alex.<br><strong>Alex:</strong> Voc&#234; n&#227;o est&#225; entendendo, n&#227;o depende do lugar. Quanto mais o tempo passa, mais eu me sinto estrangeira. Cada vez mais eu tenho consci&#234;ncia do meu sotaque. De que a minha voz &#233; uma ofensa para o ouvido deles. N&#227;o sei n&#227;o, acho que eu t&#244; ficando velha...<br><strong>Miguel:</strong> Voc&#234; est&#225; ficando &#233; doida, Alex. Voc&#234; s&#243; tem 28 anos.<br><strong>Alex:</strong> 28... 30, 40, 50, 60... t&#225; passando t&#227;o depressa. Depois, eu morro de medo de ficar velha aqui fora. Mas a&#237;, quando eu penso em voltar para o Brasil, me d&#225; um frio na espinha.</p></blockquote><p>&#201; expl&#237;cito que o sentimento de estrangeirismo &#233; mais profundo e complexo do que o simples fato de a personagem estar fora do territ&#243;rio de origem. Fundem-se aqui o estrangeirismo do desterro e o estrangeirismo existencial, resultando numa incomplementaridade do &#8220;eu&#8221;, originada inicialmente do desapego tanto &#224; terra natal quanto a si mesma.</p><p>O grande conflito de Alex se resume na busca de uma identidade singular, desenvolvida e plena frente &#224;s influ&#234;ncias do mundo. Por&#233;m, essa identidade planificada &#233; incoerente. O que existe &#233; um constante jogo de identidades contradit&#243;rias, direcionando o homem, a cada hora, para caminhos contradit&#243;rios e, &#224;s vezes, desconhecidos.</p><blockquote><p>&#8220;O processo de identifica&#231;&#227;o, atrav&#233;s do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, torna-se mais provis&#243;rio, vari&#225;vel e problem&#225;tico. Esse processo produz o sujeito p&#243;s-moderno, conceptualizado como n&#227;o tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma &#8216;celebra&#231;&#227;o m&#243;vel&#8217;: formada e transformada continuamente em rela&#231;&#227;o &#224;s formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.&#8221; (HALL, 1987, p. 13)</p></blockquote><p>A quest&#227;o &#233; discutida tendo como argumento o fato de o velho conceito de identidade estar em decl&#237;nio, cedendo lugar a novas identidades e &#8220;desmembrando&#8221; o indiv&#237;duo que, at&#233; ent&#227;o, se autodenominava unificado. Em outras palavras, uma mudan&#231;a estrutural est&#225; transformando os conceitos culturais de g&#234;nero, classe, sexualidade, etnia, nacionalidade etc., que antes nos embasavam solidamente como indiv&#237;duos pertencentes a uma sociedade. Tais transforma&#231;&#245;es est&#227;o abalando nossas identidades pessoais, levando-nos a questionar a ideia que temos de n&#243;s pr&#243;prios e originando uma &#8220;perda em si&#8221;, um &#8220;estrangeirismo pessoal&#8221;. &#201; justamente essa fragmenta&#231;&#227;o identit&#225;ria que gera o fen&#244;meno da crise de identidade.</p><blockquote><p>&#8220;A identidade somente se torna uma quest&#227;o quando est&#225; em crise, quando algo que se sup&#245;e como fixo, coerente e est&#225;vel &#233; deslocado pela experi&#234;ncia da d&#250;vida e da incerteza.&#8221; (MERCER, 1990, p. 43)</p></blockquote><p>Esse processo m&#243;vel pode ser considerado como a transforma&#231;&#227;o da pr&#243;pria modernidade, descrevendo a concep&#231;&#227;o de um homem p&#243;s-moderno, &#224; frente de qualquer concep&#231;&#227;o essencialista ou de identidade fixa. Dentro deste contexto, Alex &#233; a representa&#231;&#227;o do indiv&#237;duo p&#243;s-moderno, em crise consigo mesmo por n&#227;o se dar conta do processo que est&#225; vivenciando.</p><p>No decorrer da sequ&#234;ncia, Alex denomina sua voz como uma ofensa ao ouvido dos portugueses. N&#227;o possuindo uma valoriza&#231;&#227;o pessoal, ela se automarginaliza pela condi&#231;&#227;o de clandestina e por ser algu&#233;m em confus&#227;o de pap&#233;is, pouco &#224; vontade consigo, n&#227;o tendo senso de pertin&#234;ncia e nenhum senso de integridade. Como consequ&#234;ncia da desesperan&#231;a e da n&#227;o produtividade, Alex n&#227;o percebe a transitoriedade do tempo, marcando a aproxima&#231;&#227;o cronol&#243;gica de uma solid&#227;o externa a ser somada &#224; interna, j&#225; existente. Diante de tal pensamento, levanta a remota possibilidade de voltar ao pa&#237;s de origem, seguida imediatamente de uma express&#227;o de desconforto e da quase afirma&#231;&#227;o de essa possibilidade ser inadmiss&#237;vel. A volta ao Brasil &#233; um desafio extremamente negativo, como uma roleta-russa, cuja possibilidade da trag&#233;dia &#233; mais certa do que o al&#237;vio de uma segunda chance.</p><p>Para se abordar a analogia entre a narrativa cinematogr&#225;fica e a narrativa liter&#225;ria, &#233; necess&#225;rio especificar conceitos e diferen&#231;as existentes entre os dois processos de cogni&#231;&#227;o dessas duas formas de arte.</p><p>A literatura escrita se utiliza de palavras que, atrav&#233;s de signos lingu&#237;sticos recebidos de forma sens&#237;vel e usufru&#237;dos por meio de uma opera&#231;&#227;o mais complexa, por&#233;m imediata, exploram a sem&#226;ntica ligada &#224;quele signo. A partir de dados contextuais, o signo desencadear&#225; uma s&#233;rie de imagens, estimulando emotivamente o receptor.</p><p>No caso da imagem, o caminho &#233; inverso. O primeiro est&#237;mulo &#233; o dado sens&#237;vel ainda n&#227;o racionalizado e conceptualizado, recebido inicialmente com toda a sua carga vivaz e emotiva.</p><p>Entre os dois g&#234;neros, pode-se afirmar que ambos s&#227;o manifesta&#231;&#245;es art&#237;sticas baseadas na a&#231;&#227;o, entendendo-se por a&#231;&#227;o uma rela&#231;&#227;o que se estabelece entre uma s&#233;rie de fatos, um desenrolar de acontecimentos reduzidos &#224; estrutura-base.</p><p>Num romance, esta a&#231;&#227;o &#233; contada, ao passo que no cinema ela &#233; representada. Nas palavras de Eco (1987, p. 190):</p><blockquote><p>&#8220;A diferen&#231;a entre a a&#231;&#227;o f&#237;lmica e a a&#231;&#227;o narrativa parece ser a seguinte: o romance diz-nos &#8216;aconteceu isto, depois aconteceu isto, etc.&#8217;, enquanto o filme nos coloca perante uma sucess&#227;o de &#8216;isto + isto + isto, etc.&#8217;, uma sucess&#227;o de representa&#231;&#245;es de um presente, hierarquiz&#225;veis apenas na fase da montagem.&#8221;</p></blockquote><p>Ademais, &#233; relevante dizer que toda e qualquer arte de representa&#231;&#227;o manifesta produ&#231;&#245;es simb&#243;licas que, direta ou indiretamente, mais ou menos conscientemente, abordam um ou v&#225;rios pontos de vista e leituras sobre o mundo real.</p><p>Com a finalidade de obter tal efeito, &#233; muito comum o uso de met&#225;foras, definida nas palavras de Metz (1975, p. 10) como &#8220;... uma figura de express&#227;o verbal, a forma mais condensada da imagem liter&#225;ria&#8221;. Portanto, compreende-se por met&#225;fora a analogia de sentido entre o termo usado e aquele impl&#237;cito. No caso do cinema, o efeito metaf&#243;rico pode ser gerado por uma sucess&#227;o de imagens que produzem um sentido al&#233;m do literal.</p><p>Considerando a sequ&#234;ncia &#8220;B&#8221;, as met&#225;foras s&#227;o detect&#225;veis por interm&#233;dio de s&#237;mbolos e efeitos obtidos atrav&#233;s de alguns planos. A partir da observa&#231;&#227;o de tais recursos, apresentar-se-&#225; uma descri&#231;&#227;o seguida de uma leitura simb&#243;lica da sequ&#234;ncia em quest&#227;o.</p><p>Marcada por uma po&#233;tica que trata da morte, a sequ&#234;ncia &#8220;B&#8221; envolve o espectador numa atmosfera intimista e reveladora. O plano m&#233;dio (P.M.)&#178; inicial mostra Paco no chuveiro, perturbado devido &#224; perda da m&#227;e. O enquadramento se fecha gradativamente, culminando em um <em>close-up</em>&#179;, proporcionando a ideia de aumento da dor ali presente. Tal recurso permite uma melhor visualiza&#231;&#227;o da imagem de Paco, inicialmente desfocada e mais n&#237;tida com a aproxima&#231;&#227;o do plano. Este movimento conduz metaforicamente o espectador a adentrar no mundo da personagem, formando, assim, uma &#8220;cumplicidade&#8221; entre ambos. O <em>close-up</em> amplia a express&#227;o de Paco, revela sua consterna&#231;&#227;o, e seus olhos fechados sugerem uma entrega emocional total.</p><p>A partir da&#237;, temos uma sucess&#227;o de cenas curtas que se alternam com a imagem de Paco, criando um paralelo de causa e consequ&#234;ncia do sentimento que rege a sequ&#234;ncia. Paco derrama suas l&#225;grimas ao mesmo tempo em que a &#225;gua do chuveiro escorre pelo piso e invade a sala do apartamento, levando fotos e postais ca&#237;dos no ch&#227;o. Dentro do contexto narrativo, a morte representa paralelamente sofrimento e al&#237;vio. Para Paco, o sofrimento &#233; consequ&#234;ncia da morte da m&#227;e; chora o an&#250;ncio expl&#237;cito da solid&#227;o agora generalizada. Contudo, a arte imita a vida, e o destino da frustrada imigrante n&#227;o &#233; de todo surpreendente, j&#225; que aos velhos n&#227;o &#233; dada a possibilidade de realiza&#231;&#227;o de sonhos, apenas, e t&#227;o somente, a repeti&#231;&#227;o em torno de antigos temas e a espera desgastante de uma morte que os alivie do fardo de uma exist&#234;ncia tediosa. Da&#237; observa-se a morte como um al&#237;vio para a m&#227;e de Paco, que &#8220;paga&#8221;, com suas esperan&#231;osas economias, seu pr&#243;prio enterro e a liberdade da letargia e da impossibilidade da realiza&#231;&#227;o pessoal.</p><p>&#178; Basicamente, o plano de um corpo humano do tronco para cima. A maior parte do fundo &#233; eliminada, conseguindo-se, desta maneira, que a figura humana se converta no centro de aten&#231;&#227;o.<br>&#179; Essencial para atingir a m&#225;xima intensidade dram&#225;tica. A express&#227;o do ator ganha destaque, apresentando-se mais n&#237;tida e forte.</p><blockquote><p>V&#243;s, as &#193;guas, que reconfortais,&#8308;</p><p>trazei-nos a for&#231;a, a grandeza,</p><p>a alegria, a vis&#227;o!</p><p>Soberanas das maravilhas,</p><p>regentes dos povos, as &#193;guas!</p><p>... V&#243;s, as &#193;guas, dai sua plenitude ao rem&#233;dio, a fim de que ele seja uma coura&#231;a para o meu corpo, e que assim eu veja por muito tempo o sol!</p></blockquote><p>H&#225; diferentes varia&#231;&#245;es culturais sobre a simbologia da &#225;gua. Mas pode-se observ&#225;-las em tr&#234;s leituras dominantes: fonte de vida, meio de purifica&#231;&#227;o e centro de regeneresc&#234;ncia. Essas tr&#234;s vis&#245;es se encontram nas mais antigas tradi&#231;&#245;es e podem formar um enorme e variado n&#250;mero de combina&#231;&#245;es imagin&#225;rias. Em certas alegorias t&#226;ntricas, a &#225;gua &#233; representada como o sopro vital (<em>Prana</em>), inferindo a ideia de fertilidade, imortalidade, cura e al&#237;vio.</p><p>Incessante em toda a sequ&#234;ncia, a &#225;gua pode ser considerada como um recurso metaf&#243;rico ao estabelecer uma analogia entre as l&#225;grimas de Paco e as &#225;guas do chuveiro, representando um choro &#250;nico e melancolicamente intermin&#225;vel, como o de Iara, personagem de Francisco Ribas no conto &#8220;Lagoa de L&#225;grimas&#8221;, que, ao chorar a morte do amado, forma uma lagoa no lugar onde ele fora sepultado. A perman&#234;ncia da personagem sob o chuveiro enquanto chora sugere tamb&#233;m a tentativa de &#8220;purificar-se&#8221; do sentimento m&#243;rbido e corrosivo causado pela morte. Esse mesmo pranto percorre todos os cantos do apartamento, carregando fotos e postais pertencentes a sua m&#227;e. S&#237;mbolos de toda a hist&#243;ria de vida da mulher estrangeira, essas lembran&#231;as e refer&#234;ncias eram, ao mesmo tempo, retratos de seu passado e representa&#231;&#245;es de seu mais pr&#243;spero futuro, pois o sonho de voltar &#224; Espanha acabaria com o tormento de viver no Brasil, longe de suas verdadeiras ra&#237;zes e em meio &#224; solid&#227;o t&#237;pica dos que n&#227;o possuem mais as m&#250;ltiplas escolhas da juventude.</p><p>No mundo real, a &#225;gua leva fotos e cart&#245;es-postais, enquanto que, no mundo simb&#243;lico, essas &#225;guas s&#227;o l&#225;grimas de Paco diante dos sonhos e expectativas da m&#227;e, levados pela morte. Na atmosfera fria e solit&#225;ria, observa-se a profundidade da tristeza de Paco. Estar rodeado por essas &#225;guas escuras &#233; como estar morto simbolicamente. Em seu interior, agora, prevalece o vazio da aus&#234;ncia de um futuro. Busca em seu pranto uma regenera&#231;&#227;o corporal e espiritual; por&#233;m, a escurid&#227;o tem uma dimens&#227;o infinitamente maior do que qualquer centelha de esperan&#231;a, e o brilho no olhar do jovem sonhador se apaga na medida em que as &#225;guas escorrem em dire&#231;&#227;o ao desconhecido.</p><p>&#8308; Jean CHEVALIER; Alain GHEERBRANT, <em>Dicion&#225;rio de S&#237;mbolos</em>, p. 15.</p><h4>SEQU&#202;NCIA B: A FUGA</h4><p>Na alucinante fuga de Alex e Paco em dire&#231;&#227;o a sua t&#227;o sonhada terra protetora, o fio condutor que os levaria &#224; felicidade &#233; quebrado. Paco &#233; baleado por seu perseguidor e o fardo das personagens ganha dimens&#227;o ainda maior: a estrada para San Sebasti&#225;n parece ainda mais &#225;rdua e extensa. A sequ&#234;ncia inicia-se no interior de um carro em disparada, onde Paco agoniza no colo de Alex. O plano aproximado proporciona ao espectador uma proximidade com as personagens, faz-no participar da intimidade de suas emo&#231;&#245;es e esquecer o ambiente que as envolve. Inserido na dramaticidade, o espectador assume a posi&#231;&#227;o de participante da cena, sente-se um companheiro na fuga de Alex e Paco e compartilha da agonia de ambos, agora diante da impossibilidade da realiza&#231;&#227;o dos sonhos. Na continuidade da sequ&#234;ncia, o plano interno &#233; substitu&#237;do por uma panor&#226;mica em plano geral, que amplia a vis&#227;o, descrevendo a propor&#231;&#227;o e a intensidade da a&#231;&#227;o. A c&#226;mera sai do interior do carro, persegue-o envolto &#224; paisagem, traduzindo a agonizante atmosfera. Assim, o espectador observa o carro de longe, cada vez mais distante, marcando, desta forma, a insignific&#226;ncia dos personagens e suas respectivas dores. E dessa infinita paisagem nos distanciamos progressivamente, despedindo-nos dos jovens aventureiros de <em>Terra Estrangeira</em>.</p><blockquote><p>&#8220;Deve-se ressaltar que qualquer recurso t&#233;cnico s&#243; possui um significado se aliado a um conte&#250;do. &#8216;S&#243; quando se articulam a um conte&#250;do, os componentes expressivos do filme adquirem uma raz&#227;o de existir. Um <em>travelling</em> por si s&#243; nada quer dizer [...] o conte&#250;do e a express&#227;o formam um todo. Apenas sua combina&#231;&#227;o &#237;ntima &#233; capaz de gerar a significa&#231;&#227;o&#8217;.&#8221; (VERNET, 1988, p. 41-42)</p></blockquote><p>Alex e Paco partem em dire&#231;&#227;o ao ponto de converg&#234;ncia de todas as suas esperan&#231;as e devaneios, em busca da integra&#231;&#227;o a um mundo mais humanisticamente equilibrado, onde as barreiras entre o espa&#231;o interior e o espa&#231;o exterior n&#227;o existam.</p><p>O sustent&#225;culo que um representa para o outro caracteriza o processo pelo qual o homem cria seus v&#237;nculos e paradigmas na sociedade p&#243;s-moderna. A representa&#231;&#227;o de um para o outro n&#227;o &#233; apenas uma refer&#234;ncia de norteamento, mas sim uma esp&#233;cie de raz&#227;o para &#8220;ser&#8221;. Paco, inicialmente possuindo como aspira&#231;&#227;o maior a carreira de ator, abre m&#227;o do sonho diante do primeiro fracasso e se apropria do sonho da m&#227;e morta de voltar &#224; terra natal: a Espanha. Alex, por sua vez, exausta dos pr&#243;prios sonhos e sem aspira&#231;&#245;es pr&#243;prias, assume para si a tarefa do amado, tomando como miss&#227;o deslumbrar a prov&#237;ncia que supostamente os recolher&#225; da afli&#231;&#227;o existencial.</p><p>Fran&#231;ois Flahault (1978) estabelece uma an&#225;lise objetivando compreender melhor como se d&#227;o certas representa&#231;&#245;es sociais. Toda palavra e comportamento s&#227;o formulados a partir de um &#8220;o que sou para voc&#234; e o que voc&#234; &#233; para mim&#8221;; a a&#231;&#227;o representada, a t&#237;tulo de troca, se manifesta atrav&#233;s do que chamamos de efeitos de posi&#231;&#227;o ou atos ilocut&#243;rios. Tais atos s&#227;o, em outras palavras, as falas e atitudes que caracterizam as posi&#231;&#245;es ocupadas pelos interlocutores, de forma expl&#237;cita ou impl&#237;cita. A primeira posi&#231;&#227;o &#233; manifestada atrav&#233;s de ordens ou pedidos e obedi&#234;ncias ou concess&#245;es expl&#237;citas. A segunda s&#243; &#233; compreendida em rela&#231;&#227;o &#224;s posi&#231;&#245;es que os interlocutores ocupam e, ao mesmo tempo, definem em seu comportamento.</p><blockquote><p>&#8220;Os atos ilocut&#243;rios impl&#237;citos n&#227;o dependem da vontade dos interlocutores, eles n&#227;o operam seus posicionamentos; ao contr&#225;rio, &#233; o posicionamento adquirido que estabelece sua identidade.&#8221; (FLAHAULT, 1978, p. 78, 52)</p></blockquote><p>Deste modo, Flahault mostra como a a&#231;&#227;o implica rela&#231;&#245;es de posi&#231;&#245;es. Compreender representa&#231;&#245;es do &#8220;eu para o outro&#8221;, ou seja, representa&#231;&#245;es sociais, implica conhecer a situa&#231;&#227;o que define o indiv&#237;duo que as produz. A quest&#227;o primordial de <em>Terra Estrangeira</em> &#233; a eterna busca de referenciais, v&#225;rios &#8220;eus&#8221; em busca de outros &#8220;eus&#8221; no intuito de estabelecer uma rela&#231;&#227;o de seguran&#231;a e depend&#234;ncia f&#237;sica e emocional. &#201; not&#225;vel a substitui&#231;&#227;o de pontos de refer&#234;ncia no decorrer da narrativa. Inicialmente, Paco e Alex possuem como referenciais, respectivamente, a m&#227;e e Miguel. Com a morte de ambos, a ang&#250;stia do &#8220;aleijamento emocional&#8221; e o posterior encontro os unem, conferindo aos dois os pap&#233;is de imprescind&#237;veis absolutos.</p><p>Tal comportamento marca uma esp&#233;cie de aliena&#231;&#227;o de si pr&#243;prio. No plano ideol&#243;gico, o indiv&#237;duo pode se tornar consciente ao detectar as contradi&#231;&#245;es entre suas representa&#231;&#245;es e atividades em sua vida material; ou alienado, quando h&#225; a nega&#231;&#227;o da consci&#234;ncia como processo, ou seja, mantendo a aliena&#231;&#227;o, o indiv&#237;duo permanece em um estado de &#8220;perda&#8221;, impedido por si pr&#243;prio de qualquer a&#231;&#227;o transformadora. A aliena&#231;&#227;o aqui &#233; simbolizada pela busca de um suporte no mundo exterior, um suporte f&#237;sico. As personagens desencadeiam uma atitude contr&#225;ria &#224;quela realmente modificadora: saem do &#8220;eu&#8221; para encontrar respostas em pessoas e lugares, em vez de mergulharem em si em busca da conscientiza&#231;&#227;o como seres hist&#243;rico-sociais.</p><h4>SEQU&#202;NCIA C: O VIOLINO</h4><p>Nessa fren&#233;tica busca de autocompreens&#227;o e conhecimento, &#233; criada uma interse&#231;&#227;o entre a confus&#227;o de pap&#233;is, a perda e a po&#233;tica da can&#231;&#227;o &#8220;Vapor Barato&#8221;&#8311;, representando o desafogo da estrangeira que, para aliviar seu sofrimento devido &#224; possibilidade da perda de mais um referencial e manter o companheiro no mundo entre o sono e o sonho, canta/acalanta na tentativa de faz&#234;-lo n&#227;o abrir m&#227;o da saga e acreditar de fato na exist&#234;ncia de um lar pr&#243;ximo; e, nesta tentativa, observamos a quebra de barreiras entre suas palavras e a letra da m&#250;sica.</p><p>&#8311; Composta em 1969. Parceria de Waly Salom&#227;o e Jards Macal&#233;. Interpretada por Gal Costa, originalmente em 1971, no disco &#8220;Fa-Tal - Gal a Todo Vapor&#8221;.</p><blockquote><p><em>&#8220;Talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe, mas eu quero esquecer-la, eu preciso...&#8221;</em></p></blockquote><p>Diante da oportunidade da fuga e agora a perda de Paco, h&#225; a possibilidade de o sentimento de vazio interno transformar-se em &#250;nico referencial, e o que at&#233; ent&#227;o representava um territ&#243;rio de prolifera&#231;&#227;o de conflitos identit&#225;rios pode vir a ser o &#250;nico porto seguro. Ao chegar ao final da estrada, possivelmente Alex se veja diante da frustrante constata&#231;&#227;o de que nada a espera, de que San Sebasti&#225;n &#233; t&#227;o somente mais um devaneio conector de seus conflitos existenciais com o mundo. A obstina&#231;&#227;o de Alex em realizar o desejo do amado (que se confunde com o seu pr&#243;prio) distingue um comportamento mais sentimental do que o apresentado no in&#237;cio da narrativa. Alex se permite uma transpar&#234;ncia que exterioriza sua sensibilidade e cren&#231;a numa linha de fuga. Antes, n&#227;o considerava sequer a exist&#234;ncia de um lar, sentia-se inerte demais para lutar por algo. Agora, admite estar cansada, se bem que n&#227;o o suficiente para deixar de dar a si pr&#243;pria e ao amado a possibilidade da felicidade. O cansa&#231;o pessoal de Alex nos remete &#224;s palavras de outro poeta da m&#250;sica brasileira:</p><blockquote><p>&#8220;Vim pelas noites t&#227;o longas<br>de fracasso em fracasso,<br>Hoje descrente de tudo,<br>Me resta o cansa&#231;o.<br>Cansa&#231;o de tudo,<br>Cansa&#231;o de mim...&#8221;<br>(Ant&#244;nio Vieira)</p></blockquote><p>Ao mentir, especialmente para si mesma, dizendo: &#8220;T&#244; te levando para casa, meu amor...&#8221;, talvez a tentativa seja de ativar no corpo e na alma resqu&#237;cios de for&#231;a para manter acesa a esperan&#231;a de chegar ao fim da jornada e receber como recompensa o encontro consigo pr&#243;pria e uma terra natal onde, com o esfor&#231;o do trabalho cotidiano, seja poss&#237;vel formar uma fam&#237;lia feliz, e qui&#231;&#225; originar novos estrangeiros.</p><blockquote><p><em>&#8220;Vou descendo por todas as ruas e vou tomar aquele velho navio.&#8221;</em></p></blockquote><p>O navio &#233; o s&#237;mbolo da viagem, da travessia; representa a viagem da vida. No cristianismo, o navio &#233; frequentemente relacionado com a arca de No&#233;, evocando a ideia de for&#231;a, seguran&#231;a e esperan&#231;a de recome&#231;ar uma nova vida.</p><blockquote><p>&#8220;Os filhos de Israel enviam um embaixador a Schar, rei de Armor, pedindo permiss&#227;o para atravessar as suas terras, a fim de alcan&#231;ar a Terra Prometida. Prometem n&#227;o se afastar pelos campos e vinhas [...] andar&#227;o pela estrada real at&#233; que as terras estrangeiras sejam deixadas para tr&#225;s.&#8221;&#8312;</p></blockquote><p>&#8312; Jean CHEVALIER; Alain GHEERBRANT, <em>Dicion&#225;rio de S&#237;mbolos</em>, p. 403.</p><p>A estrada &#233; o s&#237;mbolo do caminho condutor &#224; mais pr&#243;spera felicidade; &#233; o paradoxo aos caminhos tortuosos que os personagens vinham percorrendo. A cada metro, acreditam estar deixando para tr&#225;s todo o seu estrangeirismo. Por&#233;m, &#233; na mesma promissora estrada que parece ter fim o sonho do casal. Juntos, talvez n&#227;o consigam ultrapassar a fronteira entre a realidade e o sonho e vislumbrar a t&#227;o sedutora Cana&#227;, a terra on&#237;rica que emana leite e mel, e onde as casas se confundem com pedras, elementos simbolicamente ligados ao sedentarismo e &#224; seguran&#231;a dos povos. Nelas, encontravam a obra-prima para construir suas moradas e abrigos do exterior.</p><p>A pedra &#233;, ainda, s&#237;mbolo da terra-m&#227;e, pois, de acordo com algumas tradi&#231;&#245;es, as pedras preciosas &#8220;amadurecem&#8221; na rocha para depois &#8220;nascerem&#8221;. Portanto, a pedra &#233; e d&#225; vida. E &#233; por vida que eles agora lutam; numa regressiva tentativa de &#8220;retorno ao ventre&#8221;, buscam o ref&#250;gio uterino chamado San Sebasti&#225;n, onde desfrutariam de um colo confort&#225;vel e acolhedor e seriam embalados na mais suave e encantadora can&#231;&#227;o de ninar. Entretanto, o destino parece negar esta d&#225;diva a Paco, oferecendo-lhe, como &#250;ltima can&#231;&#227;o, as palavras de dor de Alex. A esta, resta a perman&#234;ncia em seu j&#225; conhecido labirinto e a espera de mais um referencial que a resgate de sua cr&#244;nica desesperan&#231;a.</p><h3>... e a luz se acende</h3><p><em>Terra Estrangeira</em> &#233; um filme reconhecido internacionalmente devido a sua excelente produ&#231;&#227;o e sensibilidade ao mostrar o fen&#244;meno do estrangeirismo. Como prova de reconhecimento, o filme recebeu v&#225;rios pr&#234;mios em festivais como San Sebasti&#225;n Film, London Films, Paris International Forum, Sundance Film, entre outros, refor&#231;ando tratar-se de uma produ&#231;&#227;o que, assim como seus personagens, dispensa passaporte.</p><p>Meu objetivo foi explorar seus simbolismos liter&#225;rio e cinematogr&#225;fico, condensando-os em uma leitura pessoal. Como aluno de Letras, pude exercitar minha capacidade de compreens&#227;o e interpreta&#231;&#227;o de uma narrativa liter&#225;ria em duas formas de manifesta&#231;&#227;o: escrita e visual.</p><p>A partir da pesquisa, a pr&#225;tica da associa&#231;&#227;o de conte&#250;dos <em>a priori</em> distintos deixou evidente a necessidade do profissional que trabalha intimamente com os dados significado-significante em estabelecer conex&#245;es entre os diversos conhecimentos adquiridos no decorrer de sua vida profissional, mostrando que ler &#8220;entrelinhas&#8221; &#233; indispens&#225;vel na vida de um leitor, mais do que a sensibilidade para al&#233;m do &#243;dio e das linhas.</p><p>Sendo assim, <em>Terra Estrangeira</em>, al&#233;m de ser um trabalho acad&#234;mico no qual pude mostrar um pouco de minha leitura de mundo, foi ponto de refer&#234;ncia para um estudo que resultou em uma melhor compreens&#227;o do sentimento de estrangeirismo permanente e o porqu&#234; da exist&#234;ncia de uma &#8220;San Sebasti&#225;n&#8221; dentro de muitos de n&#243;s.</p><h3>REFER&#202;NCIA BIBLIOGR&#193;FICA</h3><ul><li><p>BAZIN, Andr&#233;. <em>O Cinema: Ensaios</em>. S&#227;o Paulo: Editora Brasiliense, 1991.</p></li><li><p>MARNER, Terence St. John. <em>A Dire&#231;&#227;o Cinematogr&#225;fica</em>. Lisboa: Edi&#231;&#245;es 70, s.d.</p></li><li><p>METZ, Christian. <em>Linguagem e Cinema</em>. S&#227;o Paulo: Editora Perspectiva, 1980.</p></li><li><p>VANOYE, Francis; GOLIOT-LET&#201;, Anne. <em>Ensaio sobre a An&#225;lise F&#237;lmica</em>. Campinas: Papirus, 1994.</p></li><li><p>HALL, Stuart. <em>Identidades Culturais na P&#243;s-Modernidade</em>. Rio de Janeiro: Editora DP&amp;A, 1997.</p></li><li><p>METZ, Christian. <em>A Significa&#231;&#227;o no Cinema</em>. S&#227;o Paulo: Editora Perspectiva, 1977.</p></li><li><p>RIBAS, Francisco. <em>Peda&#231;os da alma</em>. Curitiba: Editora Reproset, 1990.</p></li><li><p>CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. <em>Dicion&#225;rio de S&#237;mbolos</em>. S&#227;o Paulo: Editora Jos&#233; Olympio, 1997.</p></li><li><p>FLAHAULT, F. <em>La Parole Interm&#233;diaire</em>. Paris: Du Seuil, 1978.</p></li></ul><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://narcisodeoliveira.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading! Subscribe for free to receive new posts and support my work.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>